Câncer mata ainda mais no sul do país

Segunda maior causa de mortes no Brasil (atrás apenas das doenças cardiovasculares), o câncer ainda é mais letal nos estados da Região Sul do País. Só no ano passado foram mais de 23 mil novos diagnósticos e os óbitos ultrapassaram os 30 mil registros. Conforme especialistas, os sulistas dominam as estatístícas pelo maior acesso que têm ao sistema de saúde, mas também por fatores genéticos, pelo tabagismo e por hábitos culturais como o churrasco e o chimarrão.

Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) comprovam que no Sul, entre 2006 e 2007, as taxas de incidência de neoplasias malignas por 100 mil habitantes foram bem maiores do que a média nacional em quase todos os tipos de câncer (ver gráfico). As estatísticas de 2008 não foram fechadas, mas o Inca estima que Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul continuarão com as mais altas taxas de câncer de pulmão, próstata, cólon e reto e estômago do País.

Em entrevista à FOLHA, o chefe da Oncologia Clínica do Inca, Daniel Herchenhorn, comentou que esta particularidade do Sul tem explicação. “Um dos aspectos em estudo é a associação de câncer do esôfago com bebidas consumidas acima dos 70 graus, como o chimarrão”, observou o médico. Na comparação com o Brasil, este tipo de câncer é quase três vezes maior no Rio Grande do Sul, estado com alto consumo da bebida. Um outro patrimônio dos gaúchos, o churrasco feito na brasa, também é visto como vilão porque a forma de preparo é potencialmente cancerígena. Há relação ainda de certos tipos de câncer – como o do estômago – com o consumo de alimentos embutidos, defumados e ricos em condimentos. No Paraná, o médico lembrou que os agrotóxicos usados no campo possuem substâncias cancerígenas.

Um dos mais preocupantes fatores de risco entre os sulistas, no entanto, é o tabagismo, que está relacionado com diversos tipos de câncer, como pulmão, boca, laringe, estômago, fígado e colo do útero. Pesquisa feita pelo Inca nas capitais brasileiras identificou que Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre concentram os maiores percentuais de fumantes do País.

Outra característica apontada, própria do Sul, é a descendência européia, que também favorece o aparecimento de tumores. Um último dado citado por ele, que não tem relação com fatores de risco, é que a região tem uma das melhores estruturas do País em termos de acesso à saúde, o que leva à confirmação de mais diagnósticos.

Herchenhorn orientou que as mudanças no estilo de vida são muito mais eficientes do que o uso de medicamentos. O problema é a resistência das pessoas. Para ele, o ideal seria o País investir na prevenção e educação em saúde. “Quanto mais educada para a saúde a pessoa for, mais atenta estará aos sintomas e mais rapidamente irá procurar um médico”, opinou. Por isso, continuou, é fundamental haver uma eficiente rede de saúde pública. “O Brasil ainda é um dos países com maior mortalidade por câncer de colo de útero, que é facilmente prevenível através do exame papanicolau, de baixíssimo custo”, observou.
Autor: Luciano Augusto
OBID Fonte: Folha de Londrina