Bomba-relógio em doses

As consequências negativas do alcoolismo não são apenas comportamentais e sociais. O consumo excessivo do álcool é ponto de partida para diversos males fisiológicos que podem levar à destruição de um organismo saudável em questão de meses. Além dos já conhecidos danos ao fígado, que podem levar à cirrose hepática, outros problemas, em outras áreas do corpo, podem decorrer da dependência da bebida.

O órgão que garante o abastecimento de todo o resto do corpo é um dos que sofrem com os abusos do álcool. Segundo Daniel França Vasconcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia – seção DF, o coração pode se enfraquecer devido ao alcoolismo. “O excesso da substância danifica os músculos do coração e causa a cardiopatia alcoólica”, explica o médico, citando o transtorno que causa falta de fôlego, palpitações e insuficiência nos ventrículos, entre outros sintomas.

Vasconcelos reconhece que o consumo moderado de álcool pode ser benéfico ao coração. “Em pouca quantidade, pode diminuir o risco de eventos cardiovasculares”, afirma. O abuso, porém, pode levar à pressão alta e a arritmias. O tempo de uso e a quantidade de álcool necessários para despertar problemas é variável, mas, quando surgem os sinais, não há outro caminho senão parar de beber. “Recomendamos total abstinência para o tratamento ser efetivo”, informa o cardiologista.

Nem os ossos escapam do estrago

Os ossos também são afetados quando se desenvolve o hábito contumaz da bebida. Os problemas ósseos começam a partir da degeneração do fígado, como diz o ortopedista Julian Machado.

“O álcool prejudica a metabolização da vitamina D, responsável por calcificar os ossos, o que causa osteoporose. São afetadas também as regiões próximas às articulações, cuja circulação de sangue fica mais lenta. Isso pode levar a necroses no futuro”, detalha Julian Machado.

O esqueleto também é lesado indiretamente, uma vez que o estado de embriaguez deixa a pessoa mais propensa a sofrer acidentes que culminem em lesões, traumas e fraturas. Machado diz que o tratamento dos problemas ósseos depende da avaliação do nível de degradação a que os ossos já tenham chegado em cada caso. “As medidas são implantar próteses para substituir as articulações danificadas e receitar medicamentos contra a osteoporose”.

Clínica ajuda a reduzir o risco das recaídas

Quando o quadro de alcoolismo está associado a distúrbios psicológicos e psiquiátricos, entram em cena as clínicas de saúde mental. Uma delas é a Anankê, que atende na Asa Norte. O psicólogo Thiago Peixoto, um dos sócios, conta como lida com os casos de adicção alcoólica que chegam à clínica.

“Uma das maiores dificuldades do dependente é ser sem beber. O álcool assume o lugar da identidade do doente. Quando ele precisa parar de beber, perde o seu lugar”, explica Thiago.

Assim como em alguns casos o alcoolismo leva a problemas mentais, a Anankê recebe casos de pessoas cuja dependência age como sintoma de um transtorno. “O adicto usa o álcool como remédio para seu problema principal. Muitas vezes é assim que começa. A dependência é apenas parte da estrutura de uma neurose ou uma psicose, por exemplo, e não o mal primário”, relata Thiago. Ele comenta também a respeito das dificuldades que o álcool traz para o tratamento mental.

“O álcool não combina com muitas medicações que usamos. Anula o efeito de algumas e altera o de outras”, diz.

A experiência de Thiago na Anankê mostrou que combater a dependência alcoólica é uma forma de facilitar o restabelecimento psicológico do paciente. Assim, a clínica trabalha de forma a combater a ânsia do adicto pela substância. “O alcoolismo pode não ser curável, mas a obsessão pelo álcool é”, acredita Thiago. “Procuramos tirar a droga do foco e colocar o paciente”.

A Anankê, apesar de não trabalhar com internação integral (os pacientes ficam na clínica das 9h às 17h), usa todo o tempo disponível para oferecer atividades de convivência, como trabalhos manuais, dança, canto, teatro, musicoterapia, capoeira, pintura, excursões, entre outras. Tudo de forma a manter o dependente envolvido em tarefas atraentes e saudáveis, diminuindo o risco de recaídas.
Autor: Guilherme Oliveira
OBID Fonte: Jornal da Comunidade