Uma tábua de salvação

As frentes de combate ao alcoolismo não partem só da iniciativa privada. A esfera governamental participa da luta. Sob os cuidados da Secretaria de Saúde do DF, o Centro de Atendimento Psicossocial para Usuários de Álcool e Drogas (CAPSad) oferece, desde 2004, tratamento e ajuda contra os males das substâncias aditivas. O centro supera limitações para ajudar a 80 pacientes por dia.

Inicialmente ligado à Fundação Zerbini, instituição beneficente que fornece suporte financeiro ao Instituto do Coração (Incor) de São Paulo, o CAPSad passou para a tutela da Secretaria de Saúde em 2006, seguindo determinação da Portaria nº 336 do Ministério da Saúde, datada de 2002, que regulamenta a atuação dos CAPS brasileiros. A portaria expressa que os CAPS devem cumprir função de atendimento público, não podendo, portanto, ser geridos por entidades privadas.

Existem duas unidades do CAPSad no DF: uma no Guará II e outra em Sobradinho. Cada uma recebe pacientes de todas as partes da capital. De acordo com Sônia Mochiutti, técnica de enfermagem da unidade do Guará II, isso não é o mais adequado. “O usuário é muito volúvel. Se houver um distanciamento grande entre ele e o centro, o risco de desistir do tratamento é maior”, diz. Há previsão para uma terceira unidade do CAPSad na Ceilândia, de onde provém boa parte dos pacientes da unidade Guará II.

Ao buscar os serviços do centro pela primeira vez, o paciente participa do chamado Acolhimento, uma conversa com profissional especializado que serve para avaliação, diagnóstico e elaboração de um plano terapêutico composto por atividades coletivas e individuais a serem desenvolvidas ao longo do tratamento. Não há internação integral no CAPSad. O paciente passa o dia no centro desenvolvendo atividades. O número de dias por semana depende do regime do plano terapêutico.

Há três tipos de regime: intensivo, semi-intensivo e não-intensivo. No primeiro o paciente frequenta o CAPSad todos os dias (exceto às quintas-feiras, quando há apenas consultas individuais, encontros com familiares e reuniões administrativas). No semi-intensivo é necessário ir só duas vezes por semana, em dias predeterminados. O tratamento não-intensivo é recomendado quando o paciente não tem condições de trabalhar em grupos. Nesses casos há apenas consultas pontuais e individuais, sem atividades coletivas.

As atividades desenvolvidas no CAPSad consistem em oficinas e trabalhos de convivência, monitoradas por psicólogos, terapeutas ocupacionais e, em alguns casos, ex-pacientes supervisionados. Entre os temas trabalhados estão culinária, música, tapeçaria, artes plásticas, rodas de conversa e uma horta.

Espaço garante até atendimento jurídico

A administradora da unidade do CAPSad do Guará II, Marisa de Sousa Pereira, fala das dificuldades enfrentadas pelo centro. Segundo ela, algumas áreas de profissionais requisitadas pela Portaria nº 336 não têm concurso próprio na Secretaria de Saúde, como pedagogo e educador físico.

Segundo Marisa, a equipe de enfermagem às vezes precisa fazer serviço administrativo por causa da carência de pessoal no setor. Além disso, as medicações que devem ser fornecidas aos pacientes dependem da disponibilidade de uma farmacêutica, que não vai ao centro todos os dias da semana.

A estrutura física do CAPSad é humilde, mas o espaço é bem aproveitado. Há um refeitório com cozinha (a comida vem pronta do Hospital Regional do Guará), usado também para as oficinas de culinária; uma enfermaria para atendimento de casos mais urgentes, que recebem tratamento e são enviados ao hospital; uma sala de prontuários e arquivos e um pequeno escritório para análise jurídica. “Alguns pacientes têm problemas com a Justiça e prestamos assistência”, explica Marisa.

Há também um ateliê para execução dos trabalhos manuais. Os pacientes produzem peças de artesanato usando materiais como revistas e jornais e orgulham-se muito de sua arte. Marisa conta que as peças produzidas no CAPSad do Guará II serão tema de exposição na próxima Semana da Saúde Mental, celebrada entre 15 e 22 de maio. A mostra dos trabalhos será no dia 21, na sede do centro (Guará II, QE 23, Área Especial – Subsolo do Centro de Saúde nº 2).

Apesar de ainda haver bastante o que melhorar, Marisa sabe que um item não pode nunca estar em falta no CAPSad: o diálogo. “Se você não ouve o paciente de álcool e drogas, ele pode não voltar”, alerta ela. Dedicar-se àqueles que precisam de um norte é uma tarefa que exige constante empenho e superação e é sempre um alívio para os dependentes saber que podem contar com o trabalho de pessoas que, acima de tudo, mostram vontade de continuar ajudando.
Autor: Guilherme Oliveira
OBID Fonte: Jornal da Comunidade