A cada ano, mil pessoas tentam parar de fumar

Cerca de mil campineiros tentam deixar de fumar por ano apenas no Programa Municipal de Tabagismo. Tratamentos para parar de fumar são oferecidos também na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na rede privada. A Secretaria Municipal de Saúde não tem levantamento exato do índice de sucesso no tratamento. Mas um estudo realizado em um centro de referência aponta que 88% voltam a fumar.

De 50 pessoas que participam do programa no Centro de Saúde (CS) Vila Rica, seis (12%) pararam de fumar sem uso de medicamentos. O dado coincide com estatísticas apontadas pelo psiquiatra da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Eduardo Henrique Teixeira. “A cada tentativa de parada, apenas de 5% a 10% param definitivamente. A maioria das pessoas tenta cinco a dez vezes parar de fumar. E, desses, 50% conseguem”, diz Teixeira.

O síndico Alberto Benevenuto Drumond, de 58 anos, é um desses felizardos. Depois de fumar por 43 anos, ele resolveu que era hora de parar e procurou o grupo de tabagismo do Centro de Saúde Centro. Parou há seis meses e agora se prepara para enfrentar um desafio: a Caminhada da Primavera. “O mais difícil é parar de sonhar com o cigarro. Mas os efeitos físicos compensam”, afirma Drumond, que treina na esteira todos os dias para encarar a caminhada de dez quilômetros. “Ainda não cheguei lá, mas vou conseguir”, reforça, citando que também faz caminhadas menores e outros exercícios com os grupos do centro de saúde.

O contador Carlos Roberto Pereira, de 58 anos, também frequentou por quase um ano o Grupo de Tabagismo do CS Centro e está há um ano livre do tabaco, depois de fumar por 32 anos. “Melhorou tudo. Respiro e durmo melhor, voltei a ter paladar e olfato, mais resistência física. Deixar de fumar não traz sofrimento, mas felicidade”, comemora, destacando que o mais difícil foi a primeira semana, pela síndrome de abstinência. Ele não usou medicamentos, mas algumas técnicas, como ingerir muita água, morder palito de dentes e mastigar palitos de cenoura.

O tratamento para tabagismo é oferecido em 18 unidades de saúde da rede municipal. O atendimento também está disponível no Ambulatório de Cessação do Tabagismo, coordenado pela Departamento de Psiquiatria da Unicamp, que associa atendimento multiprofissional e medicamentos. A Unimed Campinas também oferece aos associados atendimento gratuito com um grupo de apoio.

O coordenador do Programa de Tabagismo da Secretaria de Saúde, Mário Becker, avalia que a recente lei estadual que proíbe fumo em ambientes fechados terá efeito positivo na disposição das pessoas abandonarem o tabaco. “Os ambientes livres do tabaco são indutores para as pessoas largarem o cigarro”, afirma. “Além disso, as pessoas estão se dando conta do direito que têm a não submeter-se ao tabagismo passivo.”

Segundo Becker, a capacidade da rede de atender uma demanda maior de fumantes varia de uma unidade para outra. “Mas, acredito que em breve teremos este atendimento em mais unidades”, afirma. Becker lembra que o tabagismo ativo é identificado há vários anos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a primeira maior causa de morte prematura no mundo. Na forma passiva é a terceira maior causa.

SAIBA MAIS

Mais informações sobre o programa e unidades que oferecem tratamento contra o fumo podem ser acessadas pelo serviço 156, ou no site www.campinas.sp.gov.br/saude, em seguida clicando sucessivamente em “Atenção à Saúde”, “Programas e Projetos” e “Programa Municipal de Tabagismo”.

O tempo de espera e demanda por atendimento no Programa de Tabagismo variam conforme as unidades, mas em geral é pequeno (em torno de um mês), segundo o médico Mário Becker. O fumante deve procurar uma unidade que inclua sua área de residência. Depois de entrevista individual, frequenta o grupo por quatro semanas anteriores ao início da abstinência e por mais ou três meses após deixar o cigarro. Depois deve frequentar uma vez por mês até completar um ano. “Esses encontros são essenciais para a pessoa manter-se sem fumar”, destaca Becker.

Para o psiquiatra Eduardo Henrique Teixeira, a forma de tratamento mais efetiva é a associação de medicação com psicoterapia de grupo. “O resultado ainda depende muito da motivação pessoal. Portanto, um apoio psicoterápico deve ser considerado”, reforça.

A médica pneumologista da Unicamp, Ilma Paschoal, reforça que a decisão de parar é fundamental para o sucesso da empreitada. Ela diz que só são encaminhadas para tratamento as pessoas que manifestam o desejo de parar de fumar. “O fumo é encarado como dependência química, e a pessoa tem que querer parar, senão não adianta, já que o tratamento implica parar de fumar”, afirma Ilma.

“O processo é similar ao dos alcoólicos anônimos e começa com uso de drogas que tratam da síndrome de abstinência. Se a pessoa não parar de fumar, as drogas não fazem mágica”, orienta. “O básico é estar decidido a parar, não importa por quanto tempo. Qualquer parada é benéfica”, completa. Já outros profissionais afirmam que só depois de um ano sem fumar a pessoa pode se considerar não fumante.
Autor: Delma Medeiros
OBID Fonte: Correio Popular