Com pais dependentes, crianças consomem crack aos 6 anos

Crianças a partir de 6 anos de idade já estão entre as pessoas que participam de grupos de recuperação no Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômacos de Vitória (CPTT). Algumas experimentaram drogas como o crack – e até tornam-se dependentes – por conta do vício dos pais, segundo profissionais que lidam com esses pacientes no dia a dia.

“Muitas dessas crianças estão num ambiente onde a droga, em especial o crack, gera um nível de desorganização familiar muito grande. O crack tem faixas etárias de uso variadas, incluindo pais, mães que acabam introduzindo a criança que está nesse ambiente nesse tipo de vício”, explicou Walter Molulo, psicólogo do CPTT.

Encaminhamento

As crianças e os adolescentes atendidos no CPTT raramente chegam espontaneamente ao centro. São encaminhadas por determinação Judicial, pelo Conselho Tutelar, por meio dos serviços de Saúde, da escola e pelas equipes de abordagem de rua da Secretaria de Ação Social.

Nos últimos 12 meses, 175 crianças e adolescentes passaram pelo acolhimento no CPTT. Neste ano, foram 55, sendo que, desses, dez têm menos de 12 anos. O acolhimento é primeiro contato do paciente com o centro, e a partir desse encontro definem-se as estratégias de trabalho. “As crianças menores de 12 anos usam drogas indiretamente, quando acompanham os pais em áreas de consumo. E acabam dependentes não só pela droga em si, mas por todo o cenário de uso da droga”, completou o psicólogo Walter Molulo, do CPTT.

Rua

Crianças e adolescentes em situação de rua também passam por tratamento no CPTT, levados por meio da Secretaria de Ação Social. Por conta das dificuldades de manter essas pessoas no tratamento e pela necessidade de acompanhamento, as equipes de trabalho do centro estão planejando mudar forma de trabalho. Devem passar a atender a esse tipo de pacientes diretamente nos abrigos ou até mesmo na rua, a partir de mapeamento das áreas onde costumam ficar.

” A porta de entrada para o crack não são outras drogas, mas essa desarticulação familiar e os ambientes comprometidos a que as crianças estão expostas”

Conselhos recebem denúncias

Conselheiros tutelares de Vitória e de Vila Velha têm recebido denúncias a respeito de crianças envolvidas com tráfico, inclusive levadas à dependência pelo convívio com as drogas, principalmente o crack.

Em Vila Velha, o conselheiro Silvio de Lírio, da região da Grande Terra Vermelha, informou que crianças de 7 e de 8 anos já passaram pelo conselho com esse tipo de problema. “Infelizmente, temos percebido que o número de crianças envolvidas com isso tem aumentado. Também temos visto que muitas são abordadas na saída das escolas, no caminho para a casa. É um problema grave”, observou Silvio de Lírio.

Na Capital, em geral a informação sobre crianças nessa situação chega por meio de denúncias anônimas feitas diretamente ao conselho.

“Fazemos um levantamento da situação. Procuramos informações na escola, na rede de saúde, na família. Se percebermos que a permanência na família mantém o risco, sugerimos a retirada dos pais, encaminhando para familiares que não estejam envolvidos. Raramente é a família quem leva a criança para pedir ajuda”, observou Sheila Brito, coordenadora do Conselho Tutelar de Vitória.

O crack e seus efeitos

O que é: Resulta da mistura de cocaína, com substância como bicarbonato de sódio ou amônia, formando grãos que são fumados em cachimbos. O nome é derivado do ruído característico que é produzido pelas pedras quando estão sendo consumidas pelas chamas. O crack é mais barato, porque há pouca quantidade de cocaína nas pedras

O que provoca: Atua sobre o sistema nervoso central, acelerando os batimentos cardíacos, aumentando a pressão arterial, dilatando as pupilas e provocando suor intenso, tremores e excitação. Como eleva a temperatura corporal, pode levar o usuário a ter um acidente vascular cerebral. Também causa destruição de neurônios e provoca a degeneração dos músculos, o que dá a aparência esquelética ao indivíduo

Dependência: A droga leva apenas dez segundos para fazer o efeito, e a dependência do indivíduo em relação à substância dá-se mais rapidamente que as das demais drogas. O efeito devastador da droga é de cinco a sete vezes mais potente do que o da cocaína em pó
Autor: Geraldo Nascimento
OBID Fonte: A Gazeta