No tratamento contra álcool e drogas, policiais buscam apoio no Centro Renascer

Com 10 anos de Polícia Militar e sete de vício em drogas e álcool, V., 34, luta há cinco meses para se manter “limpo”. A procura por um tratamento começou por causa de uma tragédia no fim do ano passado: a morte do irmão caçula por overdose. Ao chegar em casa do trabalho, V. encontrou F., 22 anos, caído no banheiro depois de consumir toda a cocaína que o policial pegara em apreensão um dia antes em uma favela da Zona Norte.

Projeto Renascer trata de PMs dependentes químicos e alcoólicos

Dramas como esse são tratados diariamente no Centro de Reabilitação Renascer, no sexto andar do Hospital Central da PM, no Estácio. Atualmente, há 13 internados na unidade, entre PMs e parentes de policiais. Os que procuram o Renascer são exceções, segundo os médicos e psicólogos que trabalham lá. Especialistas afirmam que a maioria dos policiais que sofrem de dependência química busca ajuda fora da corporação. Seja porque não querem ser estigmatizados pelo colegas ou por temer represálias dos superiores.

“É muito difícil entender que o policial, um homem da lei, também transgride. Mas somos pessoas como qualquer outra e estamos sujeitos a esse tipo de doença, até mais do que muita gente devido ao contato fácil e diário com algumas substâncias”, afirma o sargento Alexandro Flores, que há cinco anos trabalha como conselheiro no Renascer e há sete está livre das drogas e do álcool.

Ao aceitar ser internado no Renascer, o policial assina um contrato de compromisso e começa a reabilitação, que dura 35 dias. É a fase mais crítica do tratamento, quando o paciente passa por um processo de desintoxicação e sofre crises de abstinência. Além de medicamentos para fortalecer o sistema imunológico, o paciente é apresentado aos Doze Passos — diretriz usada pelos Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos.

Após a internação, que é voluntária e pode ser interrompida a qualquer momento, o dependente químico volta ao trabalho e passa a ter acompanhamento psicológico e ambulatorial uma vez por semana. A média de recuperação é de 40%, segundo o tenente Mello Netto, psiquiatra chefe do setor. “Não é raro o policial voltar para a rua e ter recaídas. Isso faz parte da doença. E é o que torna o tratamento do policial complexo. O trabalho é estressante, a vida está em risco diariamente, e é na rua que acontece o contato com as substâncias (drogas)”, diz ele.

Entre o resgate e a droga

Psicóloga do Renascer desde 1992, Maria Leila Alves conta que um dos relatos mais dramáticos que já ouviu foi o de um bombeiro, que era viciado em cocaína. “Ele estava em reabilitação e tinha voltado para o trabalho de rua. Estava combatendo um incêndio em uma favela e, dentro de uma casa, em chamas, havia duas crianças. Quando entrou, viu quilos e quilos de cocaína embaixo do chão e na hora ficou em dúvida se salvava as crianças ou se pegava a droga “, lembra.

Encostado na viatura, o sargento que perdeu o irmão afirma que a luta é diária. “Toda vez que sinto vontade de beber ou de “dar um teco” entro em uma igreja e fico lá até a vontade passar. A cocaína e a bebida arruinaram minha vida e eu, a do meu irmão”, lamenta o PM, que, tal como a maioria dos dependentes, esconde o problema de seus colegas. V. tira um terço do bolso e diz que buscou apoio clínico e psicológico em uma ONG em vez de procurar o Renascer.

A difícil volta as ruas

O soldado D., 37 anos, foi paciente do Renascer. Desde 2007 longe da bebida e das drogas, ele ainda luta para não ter uma recaída. “Só agora voltei para o patrulhamento de rua. Tem que ter muita força de vontade para não cair em tentação. Sabia que seria difícil, mas não tanto. Na rua, o contato com as drogas é muito fácil. Uma vez corri para o Renascer. Fiquei falando no celular com um dos conselheiros até chegar lá e só fui embora quando senti que podia controlar minha vontade”, contou o policial, que bebia entre 20 e 30 latinhas de cerveja por dia.

Limite para o vício

De acordo com o Ministério da Saúde, um homem pode beber, por semana, 21 copos de cerveja (uma unidade corresponde a oito gramas de etanol) para estar dentro de uma faixa considerada segura e não se ser considerado alcoólatra. Essa conta só é válida desde que a quantidade total não seja ingerida de uma só vez e que haja dias livres de consumo de bebida. Cada copo de cerveja pode ser substituído por uma taça de vinho ou uma dose de destilado. Para as mulheres, o limite é de 14 unidades por semana.

Recaída

“Já fui buscar um sargento do meu batalhão dentro de uma boca de fumo. Ele pegou R$ 8 mil de empréstimo e se “internou” na favela durante 15 dias. Só usando drogas e bebendo cerveja. Ficou pele e osso. Acabou internado por 35 dias no Renascer, mas já voltou para a rua (patrulhamento) e continua se drogando de novo”, disse o soldado D.
Autor: Seção Cultura
OBID Fonte: O Dia Online