Crack vira epidemia e lota clínicas psiquiátricas em Aracaju

O crack já se transformou em uma epidemia em Aracaju. Esse é o entendimento dos psiquiatras, José Hamilton Maciel e Maria Helena Ávila Lima.

Hoje, na Clínica São Marcelo, entre os 150 pacientes internados, há um dependente químico que, pelo envolvimento com traficantes, levou um tiro que lhe condenou a passar o resto dos dias numa cadeira de rodas. Hoje, ele faz tratamento para se livrar da droga. Em qualquer ponto do Estado, o crack faz novas vítimas. A grande maioria dos pacientes das duas unidades do Caps de São Cristóvão, na região metropolitana de Aracaju, é consumidor de crack e está em tratamento.

Segundo Hamilton Maciel, há uma procura significativa das famílias por auxílio médico, porque o desespero em que ficam é muito grande por causa da droga. “Temos históricos de pacientes que já venderam até apartamentos. Um paciente trocou uma geladeira que custava R$ 1,2 mil por três pedras de crack. Outro vendeu tudo que tinha em casa por R$ 150 para ter 15 pedras”, disse Hamilton, repassando informações que tem do seu dia a dia profissional. “Já tivemos inúmeros pacientes aqui’, diz. A médica Maria Helena Ávila Lima, presidente da Associação de Psiquiatria de Sergipe, diz que a busca do prazer leva às pessoas ao crack. Isso porque, a droga age na mente em 10 segundos e 10 minutos depois passa o efeito, e o usuário fica deprimido. A desigualdade social leva alguns para essa busca rápida, imediatista.

“O tratamento tem que ser feito por uma equipe multidisciplinar”, explicou, por se tratar de muitas questões ao mesmo tempo. “Falta apoio, vive num contexto social com dificuldades e busca o prazer imediato”, reforça. O crack, não só torna o usuário dependente, como também desestrutura a família, levando-as aos consultórios.

Embora o crack, por sua ação devastadora, preocupe autoridades médicas e policiais [cada uma, claro, dentro de suas ações específicas], a psiquiatra Maria Helena Ávila, também chama a atenção do alcoolismo, que degrada moralmente o dependente, desestrutura a família e o leva à rua como um mendigo. “Em cada esquina há um ‘inchadinho’, diz a médica, usando o termo que os alcoólatras se tratam.

Os usuários de crack têm um tempo de vida curto, caso não procurem ajuda. Vivem cinco ou seis anos e 30% deles morrem nos dois primeiros anos de uso. Os demais estão nos presídios, porque cometem crime para poder ter acesso à droga. Quando estão em tratamento, muitas vezes se apegam à religiosidade para deixar a dependência química.

Para os médicos, a religião é uma aliada. É como se protegesse a pessoa. Mas nem sempre aquele que se mostra religioso e anda com a Bíblia nas mãos recitando capítulos e versículos dos dogmas ali escritos, apenas substitui uma dependência. A psiquiatra e psicanalista Sheila Bastos, diz que a droga é um alívio imediato que as pessoas têm nas mãos. “A droga é o alívio rápido e que depende da minha vontade” afirmou. Ela lembra que a sociedade cria estereótipos, como a magreza para o padrão de beleza para satisfazer um ideal.
Autor: Seção Cidades
OBID Fonte: Jornal da Cidade