Luta contra o vício de fumar

O homem se ajoelha e revira a lata de lixo. Ansioso, ele não busca alimentos por estar faminto. Procura restos de cigarro para saciar o vício. “Me senti um bicho”, revelou o morador da Asa Sul, que preferiu não se identificar. Na noite anterior àquela manhã de fevereiro passado, ele havia jogado o maço fora após tomar a decisão de largar o tabagismo. Menos de 12 horas depois, e apesar de enfrentar um enfisema pulmonar, o servidor público se flagrou na humilhante situação. Hoje, comemora o 14º dia de abstinência. Procurou ajuda na rede pública de saúde: “Não é fácil, mas é possível”, afirma ele, dia após dia.

O homem de 55 anos está entre os 310 mil brasilienses viciados em tabaco, 15,4% da população. Considerada uma doença crônica e a principal causa de mortes evitáveis pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o tabagismo tira oitos vidas diariamente no Distrito Federal. A maioria delas em consequência de problemas cardiovasculares, segundo dados da Secretaria de Saúde. Para combater a propagação do mal, o Programa de Controle do Tabagismo no DF oferece 31 grupos de ajuda. Os lugares para se informar e compartilhar o desejo de largar, de vez, o cigarro foram palco de uma recente pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) que traçou o perfil do tabagismo no DF. Um dos resultados do estudo mostra que os pais, os amigos e a percepção de que fumar é “bonito” são as principais influências para alguém começar com os cigarros (veja ao lado).

O Correio visitou ontem o grupo do Centro de Saúde nº 8, na 514/515 Sul. Ali, cerca de 20 pessoas se reúnem uma vez por semana, durante um mês. Recebem orientação psicológica e nutricional. Sob a batuta da assistente social Lucivane Dayrell, todos tentam atingir um único objetivo: abandonar o cigarro. Os depoimentos compartilhados revelam o drama de cada um. Mas, com o tempo, transformam-se em histórias de superação. Como a do gerente comercial Cláudio Passos, 35 anos, que 17 dias atrás largou o vício que sustentava havia 17 anos para esperar o nascimento da filha, dentro de um mês. Ou da advogada Ednólia Fernandes, que sai de Cristalina (GO) — a 119km de Brasília — para encontrar apoio no enfrentamento da doença.

“Os primeiros dias são os mais complicados. Mas o problema tem que ser encarado de frente”, comentou Cláudio. Ednólia e a maioria dos presentes no grupo foge da tentação. “Meu marido não fuma mais em casa e eu tento trabalhar mais para ocupar o tempo”, comentou a advogada. Segundo a coordenadora do grupo, evitar ambientes que remetam ao “ritual” do cigarro figura entre as estratégias para largar o fumo. “Se tomar uma cerveja com os amigos dá vontade de acender um cigarro, o programa deve ser substituído. Aquele cafezinho que sempre acompanha a fumaça também deve ser cortado”, exemplifica Lucivane.

O servidor público Mauro Rocha, 56, comemora o período de abstinência após 45 anos de dependência. “Ganhei fôlego, perdi aquele cheiro forte e até minha pele está melhor. Estou livre dessa escravidão”, comentou. Segundo a coordenadora do grupo, um percentual de 55% das pessoas para de fumar definitivamente depois de buscar ajuda.

PROCURE APOIO

Mais informações sobre os 31 grupos de combate ao tabagismo no DF e orientações para parar de fumar pelos telefones 0800 611997 (24 horas por dia) e 3346-5770 (de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h).

O estudo

Pesquisa da UnB, realizada em 2008, detalhou o perfil dos tabagistas no DF. Confira os principais resultados:

As principais influências para começar a fumar:
1. Pais e amigos.
2. Demais familiares.
3. Percepção do tabagismo como um comportamento socialmente “bonito”.

Os principais motivos que levam à busca de ajuda:
1. Prejuízo à saúde e prevenção.
2. Reclamação de pessoas próximas.
3. Recomendação médica urgente.

As situações que mais causam recaídas:
1. Problemas familiares.
2. Problemas financeiros ou profissionais.
3. Ambientes propícios ao fumo, como bares.

As principais estratégias para parar de fumar:
1. Levar algo à boca quando der vontade de fumar (água, doces, frutas).
2. Compartilhar o problema com grupos de ajuda ou amigos que o apoiem.
3. Praticar exercícios físicos.

54 substâncias cancerígenas

O cigarro contém 4.720 elementos tóxicos. Entre eles, 54 causadores de câncer. O coordenador do Programa de Combate ao Tabagismo no DF, Celso Rodrigues, observa que cada fumante consome em média 20 cigarros por dia. “O acúmulo dessas substâncias provoca a mutação das células em longo prazo”, explicou. Rodrigues comemora o fato de as pessoas procurarem ajuda em Brasília, mas admite que a estrutura é precária. Há 3 mil homens e mulheres na fila de espera. Apesar disso, quer aumentar a mobilização. “No dia 31 de maio, vamos fazer a primeira caminhada dos ex-fumantes, em comemoração o Dia Mundial Sem Tabaco, no Parque da Cidade”, convidou.
Autor: João Campos
OBID Fonte: Correio Braziliense