Entrevista com Carlos Renault – Santo Daime, a Ayahuasca

Psiquiatra formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos José Renault Filho possui pós-graduação em psicoterapia analítica e bioenergética. De 1982 a 2004 trabalhou no Serviço Médico do Banco do Brasil como psiquiatra clínico e coordenador de Saúde Mental. Há mais de 25 anos pesquisa o uso e os efeitos da Ayahuasca, psicologia e religião. Confira abaixo os depoimentos exclusivos que o entrevistado desta semana concedeu ao nosso Boletim.

1- O que é exatamente o chamado Santo Daime, a Ayahuasca?

É uma bebida indígena da Amazônia originalmente usada pelos povos andinos há mais ou menos 4.000 anos, depois expandida para toda Amazônia. Usada desde o século passado pelos caboclos e índios brasileiros. Feita do cozimento em água da folha da “Rainha” com o cipó “Jagube”, tem efeito psicoativo, indutor de alterações perceptivas não alucinógenas de cunho reflexivo. Produz aumento dos níveis serotoninérgicos, sendo conhecida como tônico entre os índios, “revigorante e curativo para os males do corpo e do espírito”.

2- Que efeitos a bebida traz ao organismo humano quando consumida e em quanto tempo?

A bebida produz efeitos sensíveis após 30 min de sua ingestão. Em algumas situações a pessoa pode não vir a sentir nenhum efeito psíquico, em outros momentos, muitos efeitos físicos como enjôo, tonturas e náuseas. A grande maioria das pessoas experimenta sentimentos positivos e vigor físico. Diferente do álcool, do tabaco, dos benzodiazepínicos e drogas sintéticas, o Santo Daime tem uso estável e fixo, pois sua ingestão nos centros religiosos, tem data certa (no máximo três vezes ao mês) e com doses reguladas e limitadas. Usuários de décadas tendem naturalmente a diminuir o volume das doses ao longo dos anos.

3- Existem casos de pessoas não-adeptas à religião que fazem uso recreativo e frequente da Ayahuasca?

O uso recreativo de não adeptos é algo muito arriscado, como um tiro no escuro. Essa bebida é de potente efeito psicoativo, inesperado e imprevisível. Assim sendo, o setting religioso regulamentado ao longo de séculos de uso por leis próprias, é justamente o que torna possível o uso seguro e positivo da bebida fora da floresta e de seu contexto original. Aqueles que tomam a bebida fora destes ambientes preparados e orientados por pessoas que seguem a hierarquia das instituições existentes e bem edificadas (santo Daime – Ceflures e União do Vegetal) são fortes candidatos à confusão mental, ao misticismo é a piora clínica psíquica.

E aqueles que de alguma forma incentivam ou possibilitam esse uso, promovem um desserviço social de conseqüência incalculável.

4- A bebida pode levar a dependência e até desencadear comportamentos psicóticos, relacionados à esquizofrenia?

Podemos dizer com certeza que a bebida não gera dependência. Mesmo porque, diferente das drogas, a busca do Daime passa por necessidades subjetivas de crescimento religioso. Sendo que esta trajetória não é de puro deleite ou de prazeres inebriantes e gozosos. Ao contrário, é uma jornada de autoconhecimento, árdua onde o esforço de superação e de aquisição de clareza é a marca registrada desta experiência.

Em relação ao aparecimento de psicoses não é maior que a manifestação de quadros de alteração de humor ou de transtorno de ansiedade. Realmente a bebida provoca agravação de processos subclínicos naqueles que já são portadores de carga genética para o transtorno. Por tanto, é contraindicado para estas pessoas e para qualquer outro sem diagnóstico, mas em estado de desequilíbrio mental.

5- Perigos e alertas de consumo.

O grande perigo e toda vigilância deve ser voltada para aquelas pessoas que fora das instituições se intitulando curadores, sejam médicos, psicólogos ou pretensos iluminados fornecem a bebida ou a administram sem o contexto religioso. Havendo inclusive pessoas que associam a Ayahuasca a outras substâncias, com resultados caóticos. Como, por exemplo, um autointitulado curador de São Paulo que até a semana passada enviava via correio a bebida à um portador de esquizofrenia em franco episódio psicótico. Felizmente a família me procurou e está em tratamento com antipsicóticos sem poder tomar nem uma gota da bebida.

Realmente o Ministério Público deve estar atento ao que se chama de uso urbano da Ayahuasca, e a esse movimento para fora do contexto religioso que deixa o usuário desprovido do aspecto doutrinário e fora da orientação adequada. Para se garantir uma experiência favorável, lógica e reflexiva, é necessário que haja essa prevenção para não vir a acontecer problemas e consequências desagradáveis futuras. E até mesmo as instituições religiosas Santo Daime e União do Vegetal devem ser questionadas, se necessário, a cerca de casos, eventos, denúncias ou procedimentos questionáveis dentro de suas instalações.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)