Entrevista com Alberto Araújo – Tabagismo

Alberto José de Araújo é pneumologista e coordenador do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo (NETT), da URFJ. Especialista em Medicina do Trabalho pela Universidade Federal Fluminense, tem vastos conhecimentos em Medicina Social e Saúde Pública. É professor do Curso de Aperfeiçoamento em Pneumologia da PUC-Rio e tem experiência nas áreas de tabagismo, pneumoconioses, planejamento de saúde, avaliação econômica em saúde e toxicologia ocupacional. Confira a entrevista sobre tabagismo que o especialista nos concedeu.

1. Quais são os principais fatores que levam um indivíduo a fumar?

Um dos motivos é a questão do grupo, dos amigos. O jovem acaba sempre seguindo a orientação do grupo e dos colegas. Quando ele vê um amigo fumando, a possibilidade de querer fumar aumenta, ele passa a se interessar pelo fumo.

Outro fator está ligado ao aspecto emocional. Os jovens, às vezes, são tímidos e tem dificuldades de se inserir nas rodas de amigos, no círculo de amizades. Fumar diminui um pouco a tensão inicial, a timidez. O álcool também é um fator que está presente nessa situação, pois ele diminui a censura e facilita o contato com o fumo. Podemos perceber que cigarro e bebida alcoólica estão sempre juntos.

O cinema também exerce influência para o início do tabagismo. Os grandes heróis sempre aparecem fumando. Antes de uma cena de ação, quando os protagonistas preparam um plano, eles fumam um cigarro e isso transmite a idéia de que o fumo ajuda a encarar uma situação difícil.

É importante lembrar também que, para o jovem, o primeiro exemplo para imitação são os pais. E isso traz um perigo enorme, pois que facilita o acesso ao cigarro. O cigarro está dentro de casa. A família exercer um fator muito forte nesse início, porque a criança procura imita-la.

Já ouvi relato de pacientes meus dizendo que começaram a fumar acendendo um cigarro para o pai, quando criança. Portanto, a juventude é um período em que o indivíduo está muito vulnerável. E facilita esse acesso.

Todos esses fatores levam uma pessoa a fumar.

2. O Brasil tem avançado em políticas públicas relacionadas ao tabagismo? Como o senhor vê essa questão?

Eu vejo essa questão com muito bom olhos. Comecemos pelos números, que são impressionantes: em 1999, 34 % dos brasileiros eram fumantes. Hoje estamos na faixa de 16%. Logicamente, os tabagistas estão diminuindo. E este é um índice baixo se compararmos aos percentuais de países da América do Sul e até mesmo de alguns da Europa. O que levou a essa redução? Temos políticas que surtiram efeitos.

Para se ter uma idéia, o Brasil foi o 2º país no mundo que adotou as advertências nas embalagens de cigarro. No início tínhamos aquelas frases: “cigarro pode causar câncer”, “cigarro pode causar enfisema pulmonar”. Depois, as exigências do Ministério da Saúde foram crescendo. Em 2001, essas frases soltas foram substituídas por imagens. Depois passamos a ter imagens mais impactantes. Essa semana foram divulgadas na grande imprensa pesquisas que comprovaram que as imagens causam repulsa nos fumantes e os fazem até pensar duas vezes antes de fumar, inclusive com medicamentos.

Outra questão relevante é que o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a oferecer tratamento para os fumantes na rede pública. Sabe-se que 200 mil pessoas já passaram pelos programas de controle de tabagismo e o percentual de cessação foi em torno de 35%, o que é um índice muito bom e comparável ao de países desenvolvidos.

3. O senhor crê que a Lei paulista que proíbe o fumo em lugares fechados será efetiva e irá “pegar”?

Acredito que a lei de são Paulo vai ser um marco. O governador José Serra teve uma preocupação de criar instrumentos para garantir que a lei pegue. E esta é uma questão de saúde pública e de interesse coletivo: este é o principal argumento da lei, que a sustenta.
Acho que o Estado paulista vai “puxar” essa lei para outros lugares e servir de exemplo.

4. Durante o Simpósio Nacional sobre Tabagismo da Abead, o senhor vai apresentar o tema “Tabagismo e comorbidade psiquiátrica”. O que será abordado na palestra?

Vou apresentar um caso clínico de um paciente que é tabagista e também apresenta um outro transtorno mental, o que chamamos de comorbidade. Nesse tipo de quadro clínico, principalmente se for um quadro de depressão, ou esquizofrenia, é uma situação que dificulta o abandono do cigarro por parte do tabagista. Sabe-se que o deprimido busca no cigarro seu refúgio, sua automedicação.

5. O senhor está desenvolvendo alguma pesquisa no momento?

Irei iniciar um trabalho com estudantes universitários na UFRJ, só com estudantes que sejam menores de 20 anos e que fumam. Quero fazer uma discussão com eles para saber a opinião deles sobre o assunto. Saber por que eles fumam, o que eles percebem, ao que eles associam o cigarro. Quero fazer um trabalho que gere questionamento, para entender esse espírito libertário do jovem, essa rebeldia e contestação que o jovem tem tão aguçado. Quero apresentar dados sobre tabagismo aos jovens, os valores que as indústrias ganham, e mostrar o que acontecem com as pessoas que continuam fumando após a juventude.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)