Especialistas alertam para o consumo dos isotônicos

Na semana em que a bebida Red Bull Cola foi proibida de sair da geladeira, depois que testes na Alemanha encontraram cocaína no produto, especialistas em medicina do exercício e nutricionistas chamam a atenção para os riscos de consumir energéticos, bebidas isotônicas e repositores protéicos, os dois últimos indicados na reidratação e recuperação de esforço intenso. Quando usados de forma errada, engordam e fazem mal à saúde.

Isotônicos (ou glicoeletrolíticos) são ricos em carboidratos, sódio, potássio e cloreto, entre outros elementos. Eles foram elaborados para praticantes de esportes. Em casos especiais, como pessoas com dificuldades de mastigação, podem até complementar a necessidade diária de energia, diz João Carlos Bouzas Marins, doutor em Ciências da Atividade Física pela Universidade de Granada e professor da Universidade Federal de Viçosa. De maneira geral, quem se exercita pouco não se beneficia.

“Essa bebida é indicada quando a atividade esportiva dura mais de uma hora. Nesse caso já é preciso recuperar eletrólitos. Em provas de grande resistência, como Iron Man, além de água são necessários ainda eletrólitos e carboidratos. Fora isso, beber isotônicos e energéticos não tem sentido”, explica o médico Jomar Souza, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBME).

Em reidratação para treinos e provas acima de uma hora, o ideal, segundo Jomar Souza, é que o isotônico possa ser preparado, em vez de tomá-lo pronto como é o habitual. Há o pó para ser diluído na água, de acordo com a necessidade do atleta, a duração da prova e os fatores ambientais previstos para o local.

“É dispensável beber sports drinks antes do exercício. Se a dieta é equilibrada, a ingestão de 200 ml a 500 ml de água 30 a 50 minutos antes da atividade é suficiente para iniciar. A partir daí, a recomendação é beber 200 ml de água para cada 20 minutos de atividade de até uma hora. Acima disso, pode-se consumir compostos de água e eletrólitos”, ensina Jomar.

Difícil é saber o que escolher entre os vários sports drinks. Além de isotônicos à base de água, sais minerais e carboidratos (de 6% a 8% de concentração); há repositores energéticos (com alta concentração de carboidratos, em torno de 90%, com vitaminas e sais minerais) e repositor protéico (com alta concentração de proteína). Outra categoria é a energética (tipo Red Bull e Burn). E a indústria criou a classificação hidrotônica, o i9 (cloreto, sódio, potássio e carboidratos). Sua propaganda diz que ele fornece energia para o dia-a-dia, estimulando o consumo freqüente, desnecessário.

“Os repositores de sais e minerais não devem ser usados diariamente por pessoas que não se exercitam. Elas têm como atingir as necessidades de sais e minerais com boa alimentação”, diz Carolina Ribeiro, especializada em nutrição funcional.

Para a especialista em medicina do exercício e do esporte, e nutrologia, Flávia Pinho Teixeira, os isotônicos ingeridos após exercícios de mais de uma hora auxiliam na reposição de glicogênio muscular, essencial para a contração das fibras. “Com o objetivo de repor o glicogênio muscular e hipertrofia muscular, devemos consumir logo no final do treino algum alimento que contenha carboidratos, mas não necessariamente sport drink. Pode ser pão, suco de fruta, mel”, orienta.

Pressão

Bebidas tipo Gatorade, Taeq e i9 (similar a os isotônicos, apenas tem menos cloreto de sódio) são contra-indicadas em menores de 10 anos, hipertensos não controlados, pessoas com doenças renais, inclusive cálculos, explica Flávia Pinho. “Esses produtos têm minerais, principalmente sódio, que sobrecarregam os rins, podendo elevar a pressão em hipertensos e formar cálculos renais em suscetíveis”, afirma.

O coordenador de nutrição em academias, Gabriel Alvarenga, contra-indica os isotônicos para alérgicos a alguns corantes (como tartrazina), em casos de gastrite e úlcera. Em geral, essas bebidas são ácidas. Além disso, o excesso de glicose das bebidas com carboidratos retarda o esvaziamento do estômago.

“Já as estimulantes podem até dar um gás e aumentar a disposição. Porém, é preciso tomar cuidado com excessos. Isso porque, dependendo da fórmula, ocorre aumento da pressão arterial e taquicardia, tremores e mal-estar”, alerta Carolina Ribeiro. Energéticos como Red Bull e Burn contêm taurina (aminoácido), carboidratos, cafeína, vitaminas do grupo B, além de conservantes e aditivos. “Em doses altas a cafeína aumenta o cortisol, o hormônio do estresse, e a ansiedade, que leva a pessoa a comer mais. O guaraná natural age de forma similar. Essas bebidas ainda têm corantes, associados à hiperatividade”, acrescenta.

Sport drinks

Estudo da Universidade do Texas e do Hospital Presbiteriano de Dallas, nos Estados Unidos, publicado na revista “New England Journal of Medicine”, sustenta que isotônicos não contêm quantidade suficiente de sódio para contrabalançar a perda desse mineral no exercício. Benjamin Levine, um dos autores, escreveu que esses líquidos oferecem concentração de sais menor do que aquela naturalmente encontrada no corpo. Para especialistas, não se justifica o uso na prática de exercícios., pois, segundo especialistas na área, não há nenhuma comprovação científica que confirme a melhoria da performance nas atividades.

Produtos estão sob investigação

Com a proibição da venda na Alemanha da bebida Red Bull sabor cola, na qual foram encontradas pequenas quantidades de cocaína (0,4 microgramas por litro), laboratórios e institutos de pesquisa passaram a analisar produtos tidos até agora como inofensivos. Segundo Fritz Sörgel, diretor do Instituto de Pesquisa Biomédica e Farmacêutica da Alemanha, exames semelhantes poderiam levar à proibição de venda também da Coca-Cola e bebidas energéticas.

Segundo a Convenção de Drogas da Organização das Nações Unidas (ONU), é permitido usar extrato de folhas de coca desde que os alcalóides sejam retirados. Os exames em dois laboratórios alemães revelam, porém, que a retirada total dos alcalóides é tecnicamente impossível.

“Quem consome uma fatia de 100 gramas de bolo de semente de papoula ingere 10 microgramas de morfina e codeína e seria considerado positivo se testado pela polícia sobre consumo de drogas”, diz o cientista Fritz Sörgel.
Autor: Antônio Marinho
OBID Fonte: O Estado do Maranhão