O risco também é do motorista

Ao mesmo tempo em que tira a vida de inocentes, a mistura álcool e volante mata os motoristas incrédulos dos riscos dessa combinação. O Correio teve acesso com exclusividade a dados parciais de uma pesquisa que relaciona as mortes no trânsito do Distrito Federal e o uso do álcool. Ela revela que 62% dos motoristas que perderam a vida em acidentes automobilísticos estavam alcoolizados.

O levantamento — por amostragem — é realizado pelo Instituto de Medicina Legal (IML-DF). Os dados referem-se a mortes ocorridas em 2007, mas só agora o estudo está concluído. Os peritos fizeram o exame de sangue em 87 motoristas que morreram no local do acidente de trânsito e descobriram que 54 deles tinham entre 0,2 e 2,87 decigramas de álcool por litro de sangue. Índices bem inferiores ao limite de 6 decigramas tolerado anteriormente pelo Código de Trânsito Brasileiro, mas que ainda hoje é defendido por quem considera a tolerância zero exagerada.

A amostragem se deu com base nas 467 mortes registradas em 2007. O IML fez o teste de alcoolemia em 190 vítimas. Dessas, 87 eram condutores de veículo. Apesar de alto, o percentual de 62% de motoristas alcoolizados é menor do que o apurado em 2005 pelo médico legista Manoel Eugenio dos Santos Modelli. Naquele ano, 84,6% dos motoristas tinham álcool no sangue. “A redução das mortes foi ainda maior depois da lei seca (Lei nº 11.705, em vigor desde 20 de junho de 2008). Só vejo um problema: a legislação despreza o exame clínico na hora de criminalizar o motorista. Isso beneficia o infrator”, observa. Entende-se por exame clínico a análise do equilíbrio, da coordenação motora e do raciocínio lógico do condutor.

Sem noção

Professor de medicina e coordenador do Programa Acadêmico Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Mauro Braz de Lima explica que, nas primeiras doses, a pessoa perde a inibição e o poder de análise crítica. “Ela abusa da velocidade, faz manobras e ultrapassagens perigosas, o que favorece o risco de acidente”, afirma Lima, que discorda da mudança na alcoolemia determinada pela lei seca. Para ele, os efeitos seriam os mesmos com a legislação anterior caso ocorresse fiscalização efetiva.

Secretário-geral da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, o médico Alberto Sabbag acrescenta que o álcool desorganiza de tal modo as funções do organismo que reduz as chances de sobrevivência da vítima de um acidente. “A pessoa perde muito mais sangue do que quem não bebeu e tem mais dificuldade de respiração.”
Internações caem 23% em todo o país

O número de pacientes internados em função de acidentes de trânsito e de mortes ocorridas dentro das unidades de saúde em todo o Brasil estão em queda. Levantamento do Ministério da Saúde nas capitais brasileiras revela redução de 23% no total de internações e de 22,5% das mortes por acidentes de trânsito. Os técnicos compararam as estatísticas do segundo semestre do ano passado com o mesmo período de 2007 (veja quadro) e atribuem a queda à Lei Federal nº 11.705/08, que impôs a tolerância zero à combinação álcool e volante.

Outro dado divulgado ontem pelo Ministério da Justiça reforça os impactos da nova legislação sobre os acidentes fatais em rodovias. A comparação entre o período de vigência de lei seca com o anterior mostra diminuição de 2% nos casos (veja quadro). O secretário-executivo do Ministério da Justiça (MJ), Luiz Paulo Barreto, acredita que os dados tendem a cair mais à medida que os estados são equipados para intensificar a fiscalização. “Quando a lei entrou em vigor, tínhamos 500 bafômetros no Brasil, sendo que 300 deles eram da Polícia Rodoviária Federal. Já entregamos 800 e, até o fim do ano, serão 10 mil. O estado de Goiás vai receber 308 e isso vai se refletir no DF”, avalia.

No depósito

São Paulo, Sergipe, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e o Distrito Federal já receberam parte dos equipamentos. Em uma segunda distribuição, dos 20 estados inscritos, apenas Roraima e o DF buscaram mais aparelhos. Os bafômetros restantes continuam à espera de seus donos no MJ.

Segundo Paulo Barreto, o DF já recebeu 50 aparelhos e outros 25 devem ser entregues nos próximos dias (serão 140 até o fim de 2009). Cada equipamento tem 2,5 mil bocais. “Se todos os estados efetivamente usarem os equipamentos nas fiscalizações, teremos 25 milhões de testes no país. O ministério vai ficar atento a isso”, diz. O aumento do poder de fiscalização deve mudar a opinião de motoristas como o administrador de empresas Thiago Luiz Ticchetti, 34 anos. “Na minha opinião, essa lei não é aplicada. As mortes estão cada vez mais constantes e as blitzes, cada vez mais raras.

Na avaliação da coordenadora da área de Doenças Não Transmissíveis do Ministério da Saúde, Deborah Malta, a redução de vítimas do trânsito só se manterá com a fiscalização. “Não podemos, de forma alguma, arrefecer o trabalho. A mudança de comportamento dos motoristas é em função das medidas restritivas da lei e da fiscalização”, defende. (AB)

PROTESTO MARCADO

A família e os amigos do estudante Pedro Gonçalves da Costa, 16 anos, atropelado e morto em 6 de junho deste ano por um condutor alcoolizado, preparam uma manifestação ao lado da Catedral Metropolitana, às 16h de hoje. Com camisetas brancas, o grupo vai pedir paz no trânsito.

BAFÔMETROS

O Ministério da Justiça vai equipar os estados com bafômetros até o fim do ano. Veja quantos aparelhos cada unidade da Federação receberá:

Acre 95

Alagoas 165

Amazonas 118

Amapá 78

Bahia 325

Ceará 320

Distrito Federal 140

Espírito Santo 180

Goías 308

Maranhão 256

Minas Gerais 424

Mato Grosso do Sul 156

Mato Grosso 88

Pará 181

Paraíba 190

Pernambuco 218

Piauí 220

Paraná 481

Rio de Janeiro 279

Rio Grande

do Norte 222

Rondônia 129

Roraima 84

Rio Grande do Sul 443

Santa Catarina 145

Sergipe 104

São Paulo 1.535

Tocantins 116

Polícia Rodoviária Federal 3 mil

TOTAL 10 mil
Autor: Editoria Cidades
OBID Fonte: Correio Braziliense