Cada vez mais mulheres dependentes de cocaína

A cocaína avançou pelo universo feminino, assim como já havia ocorrido com o álcool. Levantamento feito em todas unidades de atendimento de São Paulo, a pedido do Estado, mostra que, entre 2006 e 2008, quase dobrou o número de mulheres internadas por dependência do pó – anteriormente mais associado aos homens. E estão escondidas dessa estatística as pacientes que nunca procuraram ajuda médica e as que ingressaram em clínicas particulares de reabilitação. Trata-se de dependência que atinge todas as classes sociais.

Em 2006, foram hospitalizadas por uso de cocaína 365 mulheres, número que subiu para 589 em 2007 e para 696 no ano passado. São poucas, porém, as informações oficiais sobre o assunto. A evolução numérica informada pela Secretaria de Estado da Saúde explica também o impulso nos casos de overdose registrados por outra entidade, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

São dez casos de intoxicação por drogas registrados todos os dias no País, sem contar os que não são notificados. Isso porque os médicos – responsáveis pelas informações que abastecem o banco nacional da fundação – costumam sofrer pressão para que outro motivo seja assinalado como causa principal do envenenamento. “A amostra que chega aos nossos centros sofre com a subnotificação, quando a intoxicação foi por uma droga ilícita”, afirma a diretora do Sistema de Notificação por Intoxicação (Sinitox) da Fiocruz, Rosany Bothner. “A família do paciente, em especial, faz pressão para não registrar.”

A explicação para a cocaína ser apontada como uma das drogas que mais motiva a overdose – segundo o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, responsável pela Unidade de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – é que o pó quase nunca chega “sozinho” ao organismo. “É incomum só a cocaína entrar no caso de overdose. O álcool sempre aparece associado e o uso combinado vira uma bomba relógio para o coração.”

No corpo feminino, o dano é potencialmente letal. Ainda que a equação “álcool mais pó” represente perigo duplicado para elas, a médica Alessandra Diehl, da Associação Brasileira de Estudos das Drogas (Abead) e coordenadora de uma das duas únicas clínicas de dependentes públicas, diz que dependentes que se dizem “total flex” já são maioria. “O último levantamento que fizemos nos mostrou que 51% das internações são de poliusuários, em que mais de uma droga aparece como motivo da dependência. Álcool e cocaína são bem presentes.” Ela desenvolve um projeto de enfermaria exclusiva para o tratamento de usuárias.

Modism/ influencia no uso

Para especialistas, geração “Amy Winehouse” aprendeu a competir com homens no mercado e no abuso de drogas. Uma “geração Amy Winehouse”, que aprendeu a competir com os homens no mercado de trabalho e também no uso de drogas. O fenômeno por trás do maior espaço ocupado por dependentes do sexo feminino nas estatísticas do uso da cocaína (91% de aumento) é complexo, mas não tão difícil de ser decifrado, avalia o psiquiatra Daniel Cruz Cordeiro, que trabalha com dependência e oferece palestras para adolescentes.

“Britney Spears e Amy Winehouse não aparecem como símbolos de dependentes e sim como mocinhas, loucas, que não têm nada a perder e se esbaldam nas drogas”, define Cordeiro. “É um reflexo dessa geração que tudo mensura pelo consumo. Os garotos, e as garotas, querem beber mais, dançar mais, beijar mais na festa, usar mais drogas variadas para, assim, se divertir mais.”

Luizemir Lago, diretora do Centro Estadual de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), pontua outras duas razões para a cocaína ter invadido a vida da mulher. “Elas estão mais atentas ao problema e procurando ajuda, mas estão sofrendo com a dependência ainda muito jovens, o que compromete, em muito, sua capacidade de trabalho, num momento de início da carreira profissional.” Erica, de 19 anos, e Darlene, de 42, são dois exemplos de mulheres que saíram de locais diferentes, nunca se viram, mas, de alguma forma, experimentaram o mesmo destino trazido pela cocaína: a solidão.

Mortes por overdose no país batem recorde|/strong>

Segundo relatório da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgado na semana passada, as mortes por overdose bateram recorde. Pela primeira vez ocuparam o segundo lugar no ranking de morte por intoxicação para o sexo masculino, superando os raticidas (ficam atrás dos agrotóxicos). Os dados são referentes ao ano de 2007.

Houve 64 óbitos no último balanço, ante 42 no ano anterior. Em 2000, foram 7 registros. Apesar das informações não representarem um número absoluto alto, lançam luz sobre um problema não notificado. Os medicamentos, por exemplo, líderes em ocorrências de intoxicação (foram 81 mortes), também escondem casos em que os remédios são utilizados para o “uso recreativo”, com o intuito de “dar barato”.

“Enquanto no geral os casos de intoxicação são provocados por medicamentos, pelo mau uso, e as crianças com menos de 5 anos são as vítimas principais, o perfil do intoxicado por drogas é outro”, afirma Rosany Bothner, diretora do Sistema de Notificação por Intoxicação (Sinitox) da Fiocruz. “Os casos acontecem por abuso e os jovens entre 20 e 29 anos respondem por 35% das notificações.” Esse aumento de letalidade, avaliam os especialistas, se deve à maior mistura de substâncias. Entretanto, o toxicologista da Unifesp Sérgio Graff alerta que o aumento também pode refletir numa melhor notificação por parte dos hospitais.
Autor: Fernanda Aranda
OBID Fonte: O Estado de São Paulo