Álcool é o grande destruidor da família

O consumo de bebidas alcoólicas é o motor da violência doméstica no Brasil. Em 49,8% dos casos, o agressor estava embriagado no momento das surras. O dado faz parte de estudo feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 7 mil famílias em 108 cidades do Brasil. Em Goiás, dez pesquisadores realizaram entrevistas em Goiânia, Anápolis e Aparecida de Goiânia. Na Capital, levantamento da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) revela que o município supera a média nacional, com 80% dos casos de violência doméstica relacionados ao álcool.

A maioria dos agressores é composta de homens: o sexo masculino é responsável por 89,9% dos casos de violência, cometidas principalmente contra suas próprias mulheres (35,7%). Por medo, vergonha e pela crença de que as agressões são provocadas somente porque o companheiro estava embriagado, 22,2% das vítimas preferenciais toleram as surras por mais de cinco anos.

M.R.A. suportou apanhar do marido durante sete anos, até que no último sábado (20) saiu de casa, escondida dele, depois de levar as duas filhas para vacinação. “Quando bebia ficava agressivo. Mas ele era bom para as crianças, não deixava faltar nada”, disse.

Esse comportamento é padrão entre as mulheres. O psicólogo Arilton Martins Fonseca, autor do estudo, explica que a tolerância está baseada na crença de que o álcool é o verdadeiro responsável pelas agressões. “Nesses casos, as vítimas perdoam com mais facilidade. Elas apostam na mudança e isto é uma fantasia das mulheres”, disse. Nos domicílios com agressores embriagados, a recorrência de violência é seis vezes maior quando o álcool está envolvido num período entre seis e dez anos em que o casal convive.

Titular da Deam, Miriam Borges presencia diariamente atitudes condescendentes deste tipo. A delegada conta que mulheres retornam para pagar fiança dos agressores: “Elas dizem que a culpa é do álcool, não do marido.” Mas apesar de algumas se arrependerem depois da denúncia, as vítimas ficaram mais conscientes após a entrada em vigor da Lei Maria da Penha, em 22 de setembro de 2006. O acesso a informação reflete nas estatísticas da delegacia, que apresenta 80% dos casos de violência doméstica relacionados ao álcool.

O baixo preço das bebidas alcoólicas favorece o consumo na camada mais pobre da população. A esta facilidade de acesso soma-se a carência de atividades de lazer e diversão, falta de dinheiro e moradia em lugares pequenos. Juntos, todos esses fatores formam o contexto ideal para a tensão que precede os atos de violência nos lares.

Arilton Martins Fonseca explica que o álcool está presente em todas as classes sociais, mas é no público de baixa renda que encontra o ambiente mais propício para culminar em agressões. O estudo apresentado como dissertação de mestrado do psicólogo revelou que 49,8% dos agressores pertenciam à classe baixa. Por ser considerado um assunto privado, as agressões acabam silenciadas.

Após sete anos, vítima decide recomeçar

Depois de sete anos de seguidas violências, M.R.A., 24, tenta um recomeço. A faxineira fugiu de casa com as duas filhas no último sábado (20), depois de levar as crianças para vacinação. Na manhã de ontem, a cabeça dela ainda estava inchada devido aos socos e puxões nos cabelos que sofreu durante a última briga.

Este tipo de violência era recorrente na vida de M.R.A.: ela se casou aos 16 anos, depois que veio do Maranhão. Desde o primeiro ano de casamento, o marido tinha problemas com álcool. E a situação piorou quando ele arrumou uma amante. M.R.A. conta que a fúria do agressor não tinha motivação. Na madrugada de sábado, ele chegou em casa de madrugada, bêbado. “Gritou e me xingou, mas resolvi que não iria responder. Então, ele ficou mais agressivo e me bateu na frente das crianças.”

Foi preciso interferência de uma vizinha para as agressões encerrarem. No dia seguinte, M.R.A. saiu de casa somente com a roupa do corpo e procurou abrigo em uma casa de apoio. Ela conta que não tomou a atitude antes por medo e porque não tem família em Goiânia: “Ele falava que mataria a mim e as crianças. Agora só penso em voltar a trabalhar, ter uma vida nova, comprar novamente as minhas coisas.”
Autor: Editoria Cidades
OBID Fonte: Diário da Manhã