Jovens arriscam a saúde tomando medicamentos

Uma das características dos adolescentes e jovens é estar sempre em busca de novas experiências e sensações, mesmo que isso signifique uma transgressão ou exposição a riscos. É justamente esse desejo que faz com que adolescentes e jovens adultos consumam medicamentos para disfunção erétil sem ter nenhum problema que justifique isso, simplesmente para buscar a melhor performance sexual.

Aproveitando essa margem, o medicamento, por ser vendido nas farmácias sem necessidade de controle especial ou receita médica, ou ainda no mercado negro, como é o caso do Pramil, está virando combustível para esse público em forrós, boates, bares e outros locais onde o objetivo é namorar e se divertir.

Puramente pela experiência nova em busca da melhor performance sexual, é que o jovem que trabalha como representante comercial, de 24 anos, Roberto (nome fictício), resolveu tomar o medicamento. “Na primeira vez, eu estava em um forró com uma turma de amigos, havia bebido muito e fiquei com medo de falhar com a menina que eu tinha conhecido. Foi quando uma pessoa da turma me deu um comprimido azul. Não sei nem o nome, só lembro que era azul. Foi muito bom e não senti nada depois”, relata o jovem.

Já na segunda vez que o representante comercial tomou remédio para quem tem dificuldade de ereção, ele mesmo se informou na Internet e comprou na própria farmácia. “Pesquisei na Internet e comprei o Cialis. Não tenho nenhum problema, mas gostei de ter usado o remédio e não tive nenhuma dificuldade na compra”, conta.

O que muitas pessoas não sabem é que os medicamentos para disfunção erétil não funcionam como um afrodisíaco que vai renovar a vida sexual. Elas não têm efeito sobre a fertilidade ou sobre o desejo, impulso e apetite sexuais, são usados para o tratamento de problemas de ereção.

Casos como de Roberto são mais comuns do que se pensa. Num giro rápido pela Internet ou ainda nas comunidades virtuais é possível não só comprar os medicamentos, principalmente o Pramil, como também conhecer os relatos de experiências destes adolescentes e jovens em busca do prazer.

Na maior parte, os anúncios dos medicamentos não têm uma pessoa responsável e são feitos a partir de e-mail onde não é possível identificar quem está oferecendo e também quem está comprando. Além dos remédios para dificuldade de ereção, encontram-se anúncios de remédios para emagrecer, como sibutramina, Desobesi, Inibex, que necessitam de receita para a compra, e também de outros, como o Rivotril. Muitos jovens usam esses medicamentos para se drogar, principalmente quando misturados ao álcool.

Venda pela Internet

A coordenadora da Central de Informações sobre Medicamentos (CIM), da Universidade Federal do Ceará, Mírian Parente, destaca que a venda de medicamentos pela Internet é um problema que tem que ser combatido pelo poder público e sociedade.

“Pela Internet se compra todo tipo de medicamento e as pessoas estão totalmente expostas aos riscos disso. Existe também o comércio paralelo de medicamentos como as anfetaminas e diazepínicos, que exigem receituário, mas que não se trata de contrabando, como o Pramil. Essa venda paralela também é irregular, na medida em que não existe nenhuma segurança”, destaca.

Se é um medicamento para ser vendido com receita médica, conforme Mírian Parente, pressupõe-se que o paciente tenha sido avaliado para tomá-lo. Ninguém deve fazer isso sem avaliação e acompanhamento. “São medicamentos que causam vários efeitos adversos, de risco para a pessoa e, se não existe condição de saúde para usá-lo, ela já está em alto risco”, alerta a professora.

Já para a presidente do Conselho Regional de Farmácia (CRF-CE), Marize Girão, a propaganda gera uma necessidade de consumo desses medicamentos que não existe. “Não existe uma necessidade real, a necessidade de consumir o Pramil, muitas vezes, é como a necessidade de comprar uma roupa nova. É a questão do ter, de experimentar, da curiosidade dos jovens. É responsabilidade nossa estar alertando sobre os sérios riscos decorrentes disso. O medicamento pode se tornar uma grave arma se usado inadequadamente”, ressalta.

Conforme Marize Girão, esse fenômeno que acontece de pessoas fazerem auto-medicação ou tomar remédios em busca de sensações é decorrente de o medicamento, durante muito tempo no Brasil, ser entendido como um bem de consumo qualquer, sem ter a perspectiva do risco que ele traz por si só ou pelo uso conjunto com outras substâncias.

O controle no Brasil está posto a partir de legislação e normas sanitárias que são muito rígidas. Entretanto, a presidente do CRF-CE considera que a população precisa também fazer a sua parte, fiscalizando ativamente e acompanhando essa situação.
Autor: Editoria Cidades
OBID Fonte: Diário do Nordeste