Cigarro: Apagar é possível

Numa segunda-feira de janeiro, o publicitário Joca Souza Leão acordou sem cigarro. Resolveu que nunca mais iria fumar. E não fumou. Foi assim que abandonou o vício. Sem anunciar data, sem gesto dramático, sem planejamento. Largou e pronto. Diferentemente dele, há pessoas que buscam ajuda profissional e medicamentos para tratar o tabagismo. Qual dos métodos é o mais correto?

Os dois. Não existe fórmula para deixar de fumar. De acordo com os especialistas, cada pessoa precisa definir a própria estratégia. Há alguns métodos, medicamentos e terapias disponíveis, mas o uso deles vai depender da personalidade, do grau de dependência da nicotina e da motivação. Fundamental, em qualquer dos casos, é a decisão. “Não adianta procurar um centro de tabagismo esperando que isso vá fazer alguém parar de gostar do cigarro. Nós só damos respaldo à determinação interior do paciente. Ele tem que estar decidido a enfrentar a síndrome de abstinência”, afirma o pneumologista Murilo Guimarães.

Para alguns fumantes não é necessário qualquer tipo de acompanhamento profissional para deixar o vício. Não há contraindicação para quem opta por essa estratégia. “Não há nenhum problema em tentar deixar o cigarro sem tratamento. Parar de fumar é relativamente fácil. Difícil é não voltar”, explica Guimarães. Mas a medicina também tem opções para quem busca ajuda.

A principal arma usada pelos profissionais para incentivar um fumante a deixar o cigarro continua a ser a informação. “O tratamento do tabagismo se baseia no conhecimento da doença. O primeiro passo para quem quer parar de fumar é se entender como fumante e mudar de pensamento em relação ao cigarro. A pessoa tem que compreender que é dependente de uma droga, a nicotina”, afirma o pneumologista Ricardo Meirelles, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro.

No início do tratamento, é importante avaliar o grau de dependência de nicotina do paciente. Para isso, é aplicado o famoso Teste de Fagerström, que consiste em seis perguntas e classifica a dependência em muito leve, leve, moderada, grave e muito grave. Com o resultado, o especialista pode definir a estratégia mais adequada para o paciente. De acordo com Meirelles, no caso dos que apresentam dependência de moderada a muito elevada, a forma menos sofrida de enfrentar a síndrome de abstinência é com o uso de medicamentos. Alguns deles estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Murilo Guimarães, a terapia mais comum para tratar a dependência química é a reposição de nicotina. Ela consiste no uso de adesivos, gomas de mascar ou spray nasal que contêm a substância (apenas as duas primeiras opções estão disponíveis no Brasil). “O paciente recebe pequenas doses de nicotina através da pele ou por via oral. Isso não faz o paciente perder a vontade de fumar, mas diminui a síndrome de abstinência”, explica. De acordo com o médico, o tratamento não oferece riscos. “É a mesma nicotina do cigarro. Só que, com a terapia, você tira as 4.700 substâncias nocivas do cigarro e substitui por uma”, ressalta.

A depender do caso, os médicos recomendam o uso de outros medicamentos, sendo o mais comum a bupropiona, um antidepressivo que inibe o desejo pela nicotina e pode ser utilizado isoladamente ou junto com a terapia de reposição. Recentemente os médicos passaram a usar também a vareniclina, que tem efeito ainda mais potente, apesar de não ser antidepressivo. No tratamento com essa última, não se usa a terapia de reposição de nicotina.

Segundo Guimarães, a vareniclina tem taxa de sucesso ligeiramente mais alta que a bupropiona. Mas, independente do método, a taxa de sucesso definitiva é inferior a 50%. “Mais de 80% dos pacientes conseguem parar de fumar, mas muitos deles voltam. Por isso, depois do tratamento, é importante nunca mais colocar um cigarro na boca. A pessoa precisa se conscientizar de que o vício é marcado geneticamente e que uma tragada pode trazê-lo de volta”, diz.
Autor: Haymone Neto
OBID Fonte: Jornal do Commercio