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Geração tarja preta

A morte do astro pop Michael Jackson reavivou o debate sobre o uso e abuso de medicamentos, especialmente os de tarja preta. O cantor teria morrido após uma injeção de demerol, substância semelhante à morfina da qual era viciado. No Brasil, o demerol é pouco conhecido. Seu uso é restrito a hospitais. Entretanto, por aqui, há um movimento crescente em busca de comprimidos. O ansiolítico Rivotril vende mais que Hipoglós.

Em Caxias do Sul, em quatro anos o SUS aumentou em 28% a distribuição de dois antidepressivos, um ansiolítico e um estabilizador de humor. No total, são 1 milhão de comprimidos a mais. Caxias do Sul – Remédio demais faz mal à saúde, mas a tentação de encontrar em pílulas o alívio para dores físicas e emocionais faz dos brasileiros os sextos no ranking dos maiores consumidores de medicamentos no mundo. A automedicação com anti-inflamatórios, analgésicos, xaropes e vitaminas é uma prática antiga. A novidade é que uma parcela cada vez maior tem sido atraída para o uso de tarjas preta, só vendidos com retenção de receita médica, para aplacar problemas como ansiedade, depressão e oscilações de humor.

A busca crescente por tranquilidade em comprimidos é comprovada em números. Ano passado, 14 milhões de caixinhas do ansiolítico Rivotril foram consumidas no país. Segundo o IMS Health, instituto que audita a indústria farmacêutica no Brasil, a droga só ficou atrás do anticoncepcional Microvlar, batendo até medicamentos de uso corriqueiro, como o analgésico Tylenol e a pomada para assaduras Hipoglós. Dez anos atrás, o Rivotril nem aparecia na lista dos 10 mais vendidos, e outro ansiolítico, o Lexotan, ficava na sexta colocação.

– Procurei ajuda médica logo que perdi minha mãe, estava muito triste. Comecei a tomar Rivotril. Faz quatro anos. Queria parar de tomar. Mas sem o comprimido não consigo dormir – conta uma caxiense de 38 anos, que também já fez uso de antidepressivos e comprimidos antiobesidade de tarja preta.

No levantamento do IMS em 2008, nenhuma marca de antidepressivo aparece entre as 10 mais comercializadas, mas a venda dessa classe de medicamentos, que tem o Prozac como vedete, cresceu 42% de 2003 a 2007, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Outro medicamento que tem virado febre é a Ritalina, muito receitada a crianças para tratar hiperatividade.

Uma prova da popularidade alcançada por esses medicamentos são as dezenas de comunidades criadas no site de relacionamento Orkut com títulos como “Era burro, a Ritalina me salvou” e “Geração Prozac”. Os internautas usam o espaço para compartilhar experiências: “Faz uma hora que tomei (Prozac) e ainda sinto o mesmo nó no peito, o mesmo desânimo e falta de coragem. Uma vontade gigante de estar numa bolha”, postou uma jovem, na última quinta-feira.

O aumento do consumo desse tipo de medicamento no Brasil acompanha uma tendência mundial. Nos Estados Unidos, esse avanço motivou o psiquiatra Derek Summerfield a escrever um artigo no Journal od the Royal Society of Medicine em que critica que parte do sucesso dos antidepressivos está não numa epidemia de depressão, mas numa “epidemia de receitas de antidepressivos”. Antonio Barbosa Silva, presidente do Instituto Brasileiro de Defesa do Usuário de Medicamentos (Idum), concorda com a análise de Summerfield.

– Há uma banalização do uso de remédios, tanto da população quanto dos médicos, que os receitam. Estão confundindo depressão com tristeza – afirma.

Em Caxias, embora não haja dados sobre a venda de ansiolíticos e antidepressivos em farmácias e drogarias, o aumento da demanda desse tipo de medicamento pode ser verificado no Sistema Único de Saúde (SUS). A Secretaria Municipal da Saúde fornece, mediante receita médica, dois antidepressivos (Amitriptilina e Imipramina), um ansiolítico (Diazepam) e um estabilizador de humor (Carbonato de Litio). Só esses quatro remédios tiveram um aumento de demanda de 28% entre 2004 a 2008, o que significa, na prática, o consumo de 1 milhão de comprimidos a mais (veja detalhes no quadro).

– Os caxienses, como outras populações no mundo, estão cada vez mais intolerantes à dor e à tristeza e buscam remédio para tudo. Muitos confundem insatisfação profissional ou pessoal com doença. Como é difícil encarar o espelho sem máscaras, querem encontrar a felicidade em comprimidos – analisa o psiquiatra Celso Luís Cattanio, especialista em dependência química, de Caxias.

No país em que 43% da população está acima do peso ideal, não são apenas os estabilizadores de humor que vendem aos milhares. O uso de medicamentos tarja preta para emagrecer também é expressivo. Cerca de 1,6 milhão de brasileiros já fizeram uso de alguma fórmula vendida com retenção de receita para eliminar os quilos extras rapidinho. Metade desse consumo é de remédios à base de derivados de anfetaminas com mais de quatro substâncias associadas, uma prática condenada pelo Conselho Federal de Medicina. Mulheres na faixa etária de 25 a 35 anos são as maiores consumidoras de remédios antiobesidade.

– Temos orientado os médicos a receitarem emagrecedores com parcimônia. Existem casos em que o uso de medicamentos é indicado, mas o paciente precisa ser conscientizado de que não existem drogas mágicas – ressalta o gastroenterologista Ismael Maguelnik, diretor do Conselho Regional de Medicina (Cremers) gaúcho.

Não se sabe quais os efeitos que essa mudança de comportamento trará a longo prazo. Por enquanto, o consumo exagerado de medicamentos é uma das principais causas de intoxicações no país. Um relatório divulgado no mês passado pelo Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas (Sinitox) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que as mortes por overdose bateram recorde. Com base em dados de 2007, a pesquisa mostra que, pela primeira vez, mortes por abuso de remédios ocuparam o segundo lugar no ranking para o sexo masculino, com 24 casos. Entre as mulheres, overdoses resultaram em 53 mortes. O levantamento também apontou que o abuso de remédios é responsável por 30% dos cerca de 100 mil casos anuais de intoxicação no país.
Autor: Nádia Detoni
OBID Fonte: Jornal Pioneiro