Mistura de drogas é uma armadilha para usuários

Atalho à dependência, o pitico, feito com crack e maconha, induz quem usa a erva a se acostumar à pedra. Disfarçado em cigarros de maconha, o crack prolifera no território gaúcho. A pedra esfarelada e misturada à erva, que ganhou o nome de pitico, é uma das artimanhas dos traficantes para captar novos consumidores da droga que degrada a juventude, destrói famílias e impulsiona a criminalidade.

Dos 55 mil usuários de crack que a Secretaria Estadual da Saúde (SES) estima no Rio Grande do Sul, uma parcela significativa caiu na dependência pelo pitico. A avaliação é de policiais que atuam na repressão ao tráfico de drogas e de profissionais da área da saúde que trabalham na prevenção, no acompanhamento e no tratamento de dependentes químicos.

– É uma realidade cada vez mais presente entre as usuárias de crack que atendemos no Hospital Presidente Vargas. Muitos pacientes relatam que começaram no pitico, que nada mais é que um baseado envenenado. É uma forma de tornar menos assustador o crack, mas depois perdem o medo e passam a usar a pedra – afirma o psiquiatra Carlos Salgado, preceptor do Serviço de Psiquiatria da instituição da Capital e coordenador do Departamento de Dependência Química da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

Foi o que ocorreu com um adolescente de 16 anos, que na noite de sexta-feira foi internado pela terceira vez na Clínica Gramado, que trata dependentes químicos adolescentes no bairro Cristal, em Porto Alegre. Antes de chegar ao crack, ele experimentou cigarros de maconha com fragmentos da pedra.

– Eu tinha 14 anos e pensava que estava fumando só maconha. Achava o gosto meio estranho, mas pensei que era assim mesmo. Aí me tornei dependente – contou o adolescente.

Para sustentar a dependência, chegou a assaltar vizinhos no Campo da Tuca, uma das vilas do bairro Partenon. Como represália de traficantes, levou um tiro na mão por chamar a atenção da polícia para o local. De acordo com o enfermeiro Fábio Luciano Schakosski, especialista em saúde mental da clínica, o pitico é recorrente como porta de entrada para o crack entre os pacientes atendidos.

A maioria dos usuários faz a própria mistura em casa

Além do pitico, existem outras combinações de drogas. Algumas delas, segundo o psiquiatra Salgado, são a mistura de álcool e cocaína e de cocaína e heroína, chamado de speedball.

O diretor do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), delegado João Bancolini, informa que não dispõe de dados exclusivos sobre a apreensão de pitico, uma vez que a maioria dos usuários compõe seus próprios cigarros após comprar maconha e crack nas bocas-de-fumo.

– O pitico está proliferando. Alguns usam sabendo que o é, e outros consomem achando que estão fumando apenas a maconha, sem saber. É um cigarro turbinado que leva ao crack – informa o delegado.

Neste ano, o Denarc já apreendeu 67 quilos de crack no Estado. No ano passado, 28 quilos saíram de circulação pelas mãos dos policiais. Em 2007, foram 72 quilos. Com um quilo de crack, é possível elaborar 4 mil pedras. Como o valor de cada unidade é de R$ 5, um quilo de crack pode render cerca de R$ 20 mil.
Autor: Editoria Geral
OBID Fonte: Zero Hora