Tratamento de jovem dependente cresce 16%

A média mensal de adolescentes que iniciam tratamento contra álcool e drogas aumentou 167% em seis anos em Ribeirão Preto. Os dados são do Caps-AD (Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas).

De janeiro a junho deste ano, o centro já atendeu 50 novos casos de menores dependentes, média de 8,3 por mês. Em 2004, a média era de 3,1 novos atendimentos de adolescentes a cada mês -total de 38 casos no ano. De 2004 até hoje, a maior procura aconteceu no ano passado, quando 111 adolescentes foram ao Caps-AD.

O centro foi criado em 1996 com o intuito de tratar adultos dependentes de álcool e drogas. Com o tempo,a dependência precoce levou a unidade a estender seu serviço para os menores. Dos 50 novos casos atendidos neste ano, a maioria é formada por meninos (45). A dependência, para a maior parte, não se limita a uma substância: 33 deles fazem uso “combinado” -por exemplo, de álcool e de crack.

De acordo com a coordenadora do Caps-AD, Cristina Taveira, uma das razões para o crescimento de casos é que o uso de drogas tem se iniciado cada vez mais cedo. “Antes, tratávamos adolescentes de 15, 16, 17 anos, que usavam maconha e álcool. Agora, temos casos de adolescentes de 12 anos em tratamento.”

Uma das principais dificuldades, segundo a coordenadora, é a resistência do jovem ao tratamento. “Eles estão começando a usar a droga e não veem um prejuízo a longo prazo”, afirma. Prova disso é que parte dos recém-chegados ao Caps só está em tratamento por ordem da Justiça ou por pressão dos pais. Nestes casos, a taxa de desistência é alta.

Dependente desde os 12, Daniel (nome fictício), 18, passa por tratamento no Caps desde o início do ano. Hoje, sonha em se casar, estudar filosofia e dar palestras nas escolas para alertar sobre o risco das drogas.

Riscos

O uso contínuo de álcool e drogas ou mesmo um abuso esporádico -os “porres” em festas -pode ter um efeito devastador no organismo ainda em formação, segundo o psiquiatra Erikson Felipe Furtado, especialista em álcool e drogas da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto. “Esse porre de uma noite pode causar severos danos em uma fase de desenvolvimento neuronial do adolescente”, diz Furtado.

Na opinião do psiquiatra, o aumento da dependência entre adolescentes ocorre, entre outras razões, porque há uma tolerância social em relação ao uso do álcool por menores. “Qualquer festinha de 8ª série tem bebida”, afirma.

Coordenador do Observatório da Violência e Práticas Exemplares da USP, Sérgio Kodato critica o acesso fácil aos diversos tipos de drogas, incluindo cigarro e as sintéticas (ectasy e LSD). “Não existe uma medida educacional efetiva para coibir que o jovem seja apresentado à droga”, afirmou.
Autor: Juliana Coissi
OBID Fonte: Folha de São Paulo