Cerco às drogas em faculdades

Pesquisas já realizadas entre estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) revelam, além do uso, abuso e até dependência química de drogas ilícitas. Mas a postura da Ufes em relação ao assunto, nos seus campi, é de cautela. A abordagem é voltada para a orientação e a conscientização dos alunos usuários.

Orientar e conscientizar é também o que fazem duas instituições privadas de ensino superior do Estado, a Faesa e a UVV. Só em caso extremo é aberto processo administrativo, mas nenhum registro dessa natureza foi divulgado ontem pelas instituições.

Ao contrário do que vem acontecendo nas PUCs do Rio de Janeiro e de São Paulo, que decidiram “fechar o cerco” contra alunos usuários de drogas, as instituições capixabas optam pela abordagem educativa.

Associado à iniciativa, feita por vigilantes – no caso da Ufes, são 160 só os terceirizados, nos campi de Vitória, São Mateus e Alegre – tanto a Faesa, quanto a UVV e a Ufes usam também câmeras de videomonitoramento.

O Departamento de Serviços Gerais da Prefeitura do Campus da universidade, em Goiabeiras, Vitória, diz que há mais de 30 equipamentos no local. Em 2008, um deles registrou o momento em que um homem vendia drogas para o outro. Ambos não eram ligados à Ufes, e a polícia foi acionada. Havendo constatação de tráfico, a postura das três instituições é a mesma.

Na UVV, o diretor Nilton Dessaune lembra de um único caso de um aluno advertido verbalmente por uso de droga. “Não houve reincidência. Nós não temos maiores problemas nessa área”, afirma ele.

Carlos Vinícius Costa de Mendonça, ouvidor-geral da Ufes, está certo de que quem mais usa drogas no campus não pertence à comunidade universitária. “Não temos muros, e circulam no nosso espaço cerca de 20 mil pessoas por dia”, explica, ressaltando que a universidade “não é um aquário, e está inserida numa dimensão urbana, com toda a sua complexidade”.

Mendonça diz que a droga representa uma violência simbólica, e que qualquer violência é inaceitável. “Não pactuamos com comportamentos e posturas inaceitáveis”, diz ele, ressaltando, como as demais instituições, a preocupação com a conscientização e o diálogo, além de encaminhamento do aluno para assistência psicológica e social, em caso necessário.

Fotos para identificar usuários

As unidades da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e do Rio de Janeiro decidiram enfrentar o uso de maconha dentro dos campis de forma direta. Seguranças foram orientados a fotografar alunos fazendo uso da substância.

A primeira a adotar a medida foi a PUC paulista, onde, em abril deste ano, foram expedidos comunicados. Os seguranças foram orientados a fotografar, abordar e anotar nomes dos estudantes, identificando o curso e informando a proibição.

Ação

No Rio de Janeiro, segundo site do jornal O Globo, nesta semana, a vice-reitoria Comunitária anunciou que seguranças passariam a tirar fotos dos alunos usando maconha. A medida visa a identificar quem tenta driblar a fiscalização da vigilância da instituição.

Ainda de acordo com o site, a universidade não chama a polícia, mas seu estatuto prevê a criação de uma “comissão de inquérito” formada por dois professores do curso de Direito.

Flagrados, os usuários da droga são convidados a depor, estando sujeitos à punição imposta pela instituição de ensino, que vai desde a advertência verbal, se a pessoa tiver sido flagrada pela primeira vez, à suspensão, em caso de reincidência.

Restrição a festas reduz consumo

Regras mais rígidas para realização de festas na Ufes – incluindo proibição para a realização de raves no campus –, definidas pelo Conselho Universitário, em 2008, contribuíram, segundo o ouvidor-geral Carlos Vinícius Costa de Mendonça, para a redução do uso de drogas nos limites da instituição. Não são autorizados eventos considerados de grande porte, com público de 500 ou mais pessoas, e o limite de horário para o funcionamento deles é às 23 horas. Com as medidas, muita gente de fora da comunidade universitária deixou de se dirigir ao campus, lembra o ouvidor. Na UVV, além do monitoramento interno, há também dois carros que circulam no entorno do campus, em Vila Velha, para maior segurança de alunos e funcionários.

Uso pesado de álcool na Ufes

Uma pesquisa realizada na Ufes, com de 637 alunos de Medicina, Enfermagem, Odontologia e Farmácia, revelou que 5% fazem uso pesado de álcool e outros 12% consomem a substância com freqüência.

A mesma pesquisa mostrou que quase 25% dos estudantes de Odontologia e 18% dos de Farmácia já experimentaram solventes. O percentual dos que já experimentaram maconha varia entre 6,7% (alunos de Enfermagem) e 11,3% (Odontologia).

A pesquisa, realizada sob orientação da coordenadora científica do Núcleo de Estudos de Álcool e outras Drogas da Ufes, Marluce Siqueira, também mostrou o uso de ansiolíticos (tranquilizantes, como diazepam) e anfetaminas (estimulantes e remédios para emagrecer).

Entre as justificativas apresentadas pelos usuários para o consumo desses remédios estava a necessidade de aliviar a ansiedade gerada por provas e plantões.

A mesma pesquisa já havia sido aplicada em estudantes da Ufes da área de Ciências Jurídicas e Econômicas. O próximo grupo a ser alvo do estudo na universidade federal é o de estudantes da área de Educação.

* Título alterado pelo portal OBID
Autor: Claudia Feliz
OBID Fonte: A Gazeta