Danos do álcool ao cérebro

Fala arrastada, falta de coordenação motora, perda da autocrítica. Os efeitos do álcool no comportamento são conhecidos por todos. Mas faltava à ciência descobrir como, exatamente, a bebida age no cérebro, provocando não só esses sintomas, como favorecendo o surgimento de doenças que vão da perda da memória à demência. Pesquisadores da Universidade da Califórnia e do Instituto Salk de Ciências Biológicas, nos Estados Unidos, anunciaram ter resolvido a questão. Em um artigo publicado na revista especializada Nature Neuroscience, a equipe, conduzida pelo professor Paul Slesinger, afirmou ter localizado a área onde as moléculas do etanol atuam.

Todas as reações que temos, seja piscar o olho ou dizer “bom-dia” a alguém, dependem da conexão entre neurônios. Nosso cérebro funciona como um intrincado maquinário, com cerca de 100 bilhões de células que se comunicam entre elas a partir de transmissões elétricas e químicas. Quando pensamos algo, é disparada a conexão entre um neurônio e outro. Segundo os pesquisadores, quando uma pessoa ingere álcool, o etanol conecta-se diretamente a uma proteína chamada Girk. Ativada, ela libera potássio, substância que diminui a atividade do cérebro. “Esse é um dado inédito e pode guiar pesquisas que auxiliem no arsenal terapêutico contra o alcoolismo e doenças relacionadas ao álcool”, diz a psiquiatra Camila Magalhães Silveira, coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa).

Hoje, existem basicamente três tipos de substâncias farmacológicas utilizadas para o tratamento do alcoolismo: o antietanol, a naltrexona e o acamprosato . Elas inibem o metabolismo do etanol pelo organismo, diminuem o prazer relacionado ao consumo da bebida ou reduzem as crises de abstinência. Porém, nenhum remédio é capaz de cortar, diretamente, o efeito do álcool nos neurotransmissores, as substâncias químicas produzidas pelos neurônios para se comunicar entre eles. “Quanto mais soubermos como se dá a ação do álcool no cérebro, melhores poderão ser os medicamentos no tratamento do alcoolismo para reduzir a vontade de beber e diminuir a síndrome de abstinência”, afirma a psiquiatra Analice Gigliotti, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), a respeito da pesquisa norte-americana.

AÇÃO DEVASTADORA

De uma coisa, porém, todos os pesquisadores e médicos sabem: os efeitos do álcool são devastadores no cérebro. “Não existe consumo benéfico, nem seguro”, garante a psiquiatra Camila Magalhães Silveira. Principalmente para menores de 18 anos, cujas estruturas, ainda em formação, podem ser destruídas, de acordo com a especialista. “O consumo intenso e crônico do álcool alarga o ventríloco cerebral e diminui o córtex, causando demência”, diz.

Não é preciso ser dependente químico para sentir as ações maléficas do etanol. A ingestão do álcool, ainda que em pequenas doses, já mexe com vários neurotransmissores. A curto prazo, a bebida age como depressora do sistema nervoso central, provocando efeitos como a fala pastosa e desequilíbrio. “Com o uso prolongado, ocorre a toxicidade cerebral”, alerta Analice Gigliotti. Ela explica que, em alguns casos, é possível minimizar o prejuízo. Isso ocorre, por exemplo, quando o excesso de bebida provoca edema no cérebro. “Mas, na maioria das vezes, o dano é irreversível”, lembra.

O neurologista Ricardo Teixeira, diretor do Instituto do Cérebro de Brasília, diz que, além do alcoolismo e da intoxicação, o álcool é responsável por problemas sociais, como violência e acidentes no trânsito. Também provoca males ao organismo, principalmente ao sistema cardiovascular. De acordo com uma compilação de artigos científicos publicados recentemente no periódico britânico The Lancet, são mais de 200 as doenças associadas ao uso da bebida, incluindo mal de Alzheimer e diversos tipos de câncer.

Embora cardiologistas, eventualmente, recomendem uma dose diária de vinho durante as refeições – pesquisas já comprovaram que quem bebe essa quantidade vive mais do que quem não ingere nenhuma gota de álcool –, Ricardo Teixeira lembra que não se pode falar em dose segura, pois, ao mesmo tempo que pode trazer algum benefício ao coração, o álcool também é responsável pelo aparecimento de tumores malignos. “Uma pesquisa recente feita com 1 milhão de mulheres mostrou que uma dose por dia pode aumentar o risco do aparecimento de câncer de mama, reto e fígado”, diz o neurologista. “Ninguém deveria começar a beber. Mas se já bebe, deve diminuir”, ensina. Isso vale principalmente para os brasileiros que têm o hábito de abusar da bebida nos fins de semana, achando que, por ser algo esporádico, o organismo não vai reclamar. “É um comportamento que traz grandes prejuízos, incluindo o aumento nas chances de infartar”, diz a coordenadora do Cisa, Camila Magalhães Silveira.

EFEITOS

O álcool atua como um depressor de muitas ações no Sistema Nervoso Central (SNC) e seus efeitos dependem da dose ingerida. Em pequenas quantidades, promove desinibição, mas, com o aumento dessa concentração, o indivíduo passa a apresentar uma diminuição da resposta aos estímulos, fala embolada, dificuldade em caminhar, entre outros. A pesquisa do Instituto Salk identificou o local exato onde as moléculas de etanol atuam depois de sua ingestão

Efeitos sobre os neurotransmissores

O etanol é uma substância depressora do sistema nervoso central (SNC) e afeta diversos neurotransmissores no cerébro, entre eles, o ácido gama-aminobutírico (GABA) e o glutamato

Danos do álcool ao cérebro

Dificuldades em andar, visão turva, fala arrastada, tempo de resposta retardado e danos à memória. Uma série de fatores podem influenciar como e quanto o álcool afeta o cérebro:

quantidade e frequência de consumo de álcool;
idade de início e o tempo de consumo de álcool;
idade do indivíduo, nível de educação, gênero sexual, aspectos genéticos e histórico familiar de alcoolismo;
risco existente de exposição pré-natal ao álcool;
condições gerais de saúde do indivíduo.

Fontes: Centro de Informações sobre Saúde e Álcool e Paul Slesinger/Laboratório de Peptídeos do Instituto Salk
Autor: Paloma Oliveto
OBID Fonte: Estado de Minas