Desafio para uma vida nova

Não existe quantidade segura de tabaco, e até os fumantes esporádicos correm riscos. Se a nicotina e seus efeitos de prazer são a principal razão para os fumantes continuarem comprando maços e mais maços, há pelo menos outros 4,7 mil motivos para fazê-los interromper o hábito imediatamente. Esse número é a quantidade de substâncias que vêm a reboque na nicotina – responsável pela dependência – em cada cigarro. Na lista extensa, há raticidas, agrotóxicos, alcatrão, acetona e até naftalina. São inspiradas com a fumaça e se espalham por todo o corpo, causando várias doenças.

– Não existe quantidade segura de tabaco. Os usuários esporádicos têm o dobro de risco de sofrer um infarto do miocárdio ou desenvolver hipertensão arterial do que os não fumantes – explica o pneumologista José Miguel Chatkin.

Para piorar a situação, os fumantes desenvolvem outros comportamentos contraindicados por qualquer médico. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), de 2007 a 2009, entrevistou 1.024 jovens entre 18 e 32 anos. Os resultados apontam para uma rotina nem um pouco saudável. Comparados com os não fumantes, os tabagistas tendem mais ao sobrepeso, não tomam café da manhã regularmente, bebem mais café e álcool, comem menos frutas e verduras, têm mais depressão e ansiedade. Além disso, aumenta a frequência de prisão de ventre e de glicose elevada no sangue.

– Os tabagistas ainda levam uma vida que agride a saúde. Os desdobramentos vão desde doenças cardiovasculares até aceleração do envelhecimento – diz a coordenadora do estudo, a bióloga geneticista Ivana da Cruz.

Mas nem sempre é pensando nas consequências à saúde que uma pessoa abandona o cigarro, como mostra o exemplo de Rosana Kasper Cubas, 37 anos. Depois de 20 anos fumando, os argumentos baseados em doenças e agressão ao corpo não faziam mais efeito. Ela sabia de tudo. A força para largar a dependência veio por uma questão moral.

– Não aceitava que eu, estudante de Pedagogia, uma faculdade de ensino, e participante de atividades de conscientização ambiental, fumasse todos os dias. Isso não era possível. Então resolvi largar – conta.

A ideia surgiu após ler, no caderno Vida, que as inscrições para um programa para largar o cigarro estavam abertas. Ela recortou a nota, colocou na carteira do cigarro para não esquecer e se inscreveu. Rosana, há dois meses sem fumar, ainda está no início da luta.

– Toda vez que tomo cerveja, a vontade vem forte. Tenho de evitar até estar muito bem – afirma.

No time dos aliados está a Praça da Matriz, no centro de Porto Alegre, em frente ao trabalho. Antes, o local era cenário para várias tragadas. Hoje, o espaço serve para relaxar e respirar ar puro.

Dicas para começar

– Evite festas e bares. Ambientes onde se fuma muito despertam a vontade de acender um cigarro. Deixar de frequentá-los poupa o ex-fumante de lutar contra a tentação.
– Outros hábitos também despertam o desejo, como um cafezinho com colegas nos intervalos do trabalho. Fuja dessas ocasiões.
– Evite ficar muito tempo na presença de fumantes. Procure a companhia de quem não está sempre com um cigarro aceso entre os dedos.
– Faça uma lista dos seus momentos mais delicados. Cada pessoa deve saber o horário em que a tentação é maior. Relacione essas situações em um papel e trace suas estratégias.
– Movimentar-se faz bem para o corpo, para a saúde e para reduzir a ansiedade nos momentos de aflição. Em vez de relaxar acendendo um cigarro, quem luta contra a dependência pode descarregar caminhando, nadando ou correndo.

Categorias de fumante

– Fumante grave: acendem muitos cigarros diariamente, às vezes, mais de três maços. É altamente dependente e encontra muita dificuldade para interromper o hábito. É a categoria que apresenta maior risco de desenvolver doenças cardiorespiratórias, por exemplo.
– Fumante leve: fuma de um a quatro cigarros por dia. Também se enquadra nessa categoria aquele que fuma em algumas ocasiões, como festas, encontros com amigos ou finais de semana.
– Fumante: quem fumou pelo menos cem cigarros durante a vida e mantém o hábito atualmente. Pode ainda não ser dependente, mas o processo já começou.
– Ex-fumante: é considerado um paciente que abandonou a dependência aquele que, nos últimos meses, cortou totalmente o consumo. Especialistas divergem quanto à duração do período mínimo de abstinência. Alguns consideram seis meses tempo suficiente, outros acreditam que só vale para quem parou há pelo menos dois anos.
– Não fumante: quem nunca encostou um cigarro, charuto ou cachimbo na boca. Aquele que acendeu menos de cem cigarros na vida e hoje se mantém longe do hábito também se encaixa neste grupo.

Substâncias aliadas

Além de terapia, grupos de apoio e força de vontade, fumantes têm como aliados os medicamentos, que ampliam em quatro vezes as chances de sucesso na luta contra a dependência. Confira quais são as principais prescrições dos médicos:

– Medicamento de reposição da nicotina: como o fumante sente muito a falta dessa substância, a ideia é dar doses cada vez menores por outros meios, como adesivos e gomas de mascar. Assim, ganha-se mais força para resistir à fissura.
– Cloridrato de bupropiona: antidepressivo que causa aversão, é a opção mais utilizada atualmente. Com o tempo, os usuários vão criando repulsa ao cigarro, sentem nojo e largam.
– Vareniclina: lançado recentemente, trata-se do primeiro produto específico para pacientes que pretendem largar o cigarro. Libera vários neurotransmissores no cérebro que promovem sensações semelhantes às obtidas com a nicotina. Com o tempo, o usuário deixa de ver no cigarro sua fonte de prazer e se livra da dependência.
Autor: Editoria Vida
OBID Fonte: Zero Hora