Médicos brasileiros têm “opiofobia”, afirma especialista

Desde a morte do popstar Michael Jackson, não faltam relatos sobre os remédios consumidos pelo artista e especulações sobre qual deles pode ter levado à parada cardíaca. A primeira suspeita recaiu sobre os analgésicos derivados do ópio, como Demerol e OxyContin. Esses medicamentos têm forte potencial para causar dependência e tolerância, ou seja, o usuário tem que usar doses cada vez mais altas para obter o efeito desejado.

Após algum tempo de uso, o efeito pode não ser apenas relacionado ao controle da dor. “Dizemos que essas drogas têm um efeito reforçador para o psiquismo humano – a pessoa começa a tomar por causa da dor, mas acaba sentindo melhora em outros aspectos”, explica o médico psicofarmacologista Elisaldo Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Como outras drogas, o uso abusivo de opioides pode provocar uma overdose. “Às vezes a pessoa fica zonza e acaba tomando uma dose a mais sem perceber. Ou, então, passa por uma desintoxicação e, ao ter uma recaída, toma a quantidade alta que costumava ingerir, que pode ser fatal depois que o corpo já está sem a droga”, diz o professor.

Carlini afirma que os opiáceos agem no centro da dor, no cérebro, ao mesmo tempo que deprimem o sistema respiratório e cardiovascular. Assim, uma dose elevada pode provocar queda brusca da pressão arterial, levar o usuário ao coma, e fazer com que seus órgãos parem de funcionar.

Não são raros os acidentes envolvendo o uso de opioides nos EUA. Só a oxicodona, princípio ativo do OxyContin (remédio que não é comercializado no Brasil), provocou mais de 20 mil casos de overdose no país em 2002.

Já no Brasil, o cenário é diferente. “Os médicos têm uma espécie de ´opiofobia´: temendo a dependência, preferem não receitar, ou indicam uma quantidade abaixo do recomendado”, relata o especialista. De acordo com o levantamento mais recente do Cebrid (Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas), relativo a 2005, o Brasil possui cerca de 668 mil consumidores de derivados do ópio.

O Relatório Mundial sobre Drogas, divulgado recentemente pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mostra que o consumo dessa classe de drogas no Brasil representa 0,5% da população entre 12 e 65 anos – o maior índice da América do Sul. Já nos EUA, 5,2 milhões de pessoas usaram analgésicos opioides em 2007.

Consequência negativa

Se o excesso de zelo por parte da classe médica evita abusos, também pode ter uma consequência negativa para quem sofre de dor crônica. “Estima-se que apenas 10% a 15% dos pacientes com dores decorrentes de câncer terminal recebam o medicamento adequadamente”, conta Carlini.

O médico Cláudio Correa, coordenador do Centro de Dor do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, lembra que a restrição aos medicamentos não partem apenas dos profissionais, mas também dos próprios pacientes. “A pessoa acha que, se tem que tomar morfina, é porque está muito mal”, comenta, o que nem sempre é verdade. Os opioides não são apenas indicados para casos de câncer e queimaduras, mas também fraturas, cólicas renais, e após cirurgias ortopédicas ou de hemorroida.

Tanto Correa quanto Carlini ressaltam que quem precisa tomar o analgésico por indicação médica não tem motivo para se preocupar. Com a retirada gradual, orientada pelo especialista, o paciente deixa de usar a droga sem sofrer qualquer consequência.
Autor: Seção Ciência e Saúde
OBID Fonte: Site UOL