Crack deixou os becos e hoje escraviza jovens da classe média

Dos becos do Pelourinho às ruas da Pituba. O crack avança por todas as classes sociais sem distinção de cor, raça ou religião e está mais perto do que imaginamos. A substância entorpecente, que na década de 80 era restrita aos moradores de rua, atualmente, circula em todas as esferas da sociedade.

A brincadeira da escola com a maconha ultrapassou a adolescência e invadiu a vida adulta do publicitário U. B., 27 anos, na face do crack. Aos 14 anos, o jovem de classe média, que atualmente trabalha em uma grande produtora de eventos de Salvador, teve o primeiro contato com substâncias entorpecentes. “Fumava maconha nos fundos do colégio com os amigos diariamente. Todos largaram o vício, só eu continuei”, conta.

Quando entrou na faculdade, conheceu os efeitos do crack. “A maconha parou de fazer a cabeça. A cocaína e o ecstasy não adiantavam. Com o crack, consegui ter mais prazer. No começo, uma pedra bastava, mas hoje fumo umas dez por dia”, diz o usuário, que já buscou internamento em duas clínicas, mas não consegue largar a droga.

Ricos no vício

Casos como o do publicitário são cada vez mais comuns. Priscila Brito, diretora de comunicação do centro para tratamento de dependência química Vila Serena,em Lauro de Freiras, conta que nos últimos anos a unidade tem recebido mais pacientes das classes média e alta.

“Cerca de 90% dos nossos atendimentos são de pessoas com nível superior. Atendemos médicos, advogados e até professores universitários. A dependência química atinge pessoas de qualquer classe”, conta a diretora.

A prova da ampliação do consumo do crack entre as pessoas de classes sociais elevadas são os convênios mantidos pela clínica. A unidade, que cobra, em média, R$ 200 por dia de internamento, tem parceria para atender funcionários de grandes empresas multinacionais que atuam no estado.

“Grande parte dos pacientes é do sexo masculino, na faixa etária de 25 a 30 anos. O tratamento do crack é mais prolongado e requer muita atenção e integração com a família. No centro, os pacientes aprendem a conviver com a abstinência”, conta a diretora da unidade, que aposta nas atividades socioeducativas como modelo de tratamento.

Perdas

O efeito fortuito da fumaça produzida pelo aquecimento da pedra, que é uma variação da pasta de cocaína, é devastador na vida do usuário e também dos parentes. É o que acontece com o publicitário, que depois de vender objetos de casa, ainda se desfez do carro.

Há três meses, para seguir no vício, mantém relações sexuais com traficantes. “Meu dinheiro acabou e agora compro a droga com o meu corpo. Estou no fundo do poço”, lamenta o jovem, que confessa ter se afastado da maioria dos amigos.

Patrícia Von Flach, da área técnica de saúde mental da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), explica que as alterações da sociedade provocaram mudanças no perfil dos usuários, o que deixou o crack mais perto da classe média.

“A cultura do uso da droga é um reflexo das alterações da própria sociedade. O consumo se agrava quando o usuário perde a referência familiar. O entorpecente acaba sendo uma forma de sustentação, independente do nível social”.

Consumo

Como o crack é inalado na forma de fumaça, ele chega ao cérebro muito mais rápido que a cocaína, que é cheirada em pó. A substância pode chegar ao cérebro e criar a sensação de prazer em até 15 segundos, enquanto a cocaína em pó inalada leva de dez a 15 minutos para surtir o mesmo efeito. O prazer do crack pode durar de cinco a 15 minutos, o que obriga o viciado a consumir cada vez mais a droga.

A especialista da Sesab argumenta que a grande dependência do usuário dificulta o tratamento do viciado. Por isso, ela defende a libertação do vício pela lógica da redução de danos. “Não é possível acabar com o uso de um dia para o outro. Orientamos os usuários a diminuir progressivamente o consumodas substâncias para evitar danos maiores”.

Tratamento

A especialista da Sesab entende que a internação é necessária apenas em momentos de surto. “O ministério preconiza que nos hospitais gerais tenham leitos destinados para atender esses usuários. Sabemos que isso é muito difícil no nosso sistema de saúde pela grande demanda de pacientes”.

No serviço público de saúde do Brasil, apenas a cidade de São Bernardo do Campo (SP) tem centros de internamento de pacientes. Em Salvador, há apenas um centro de atenção psicossocial, que contribui comauxílio de medicamentos e assistência psicológica.

O Centro de Estudos eTerapia do Abuso de Drogas (Cetad), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, também oferece serviço gratuito de apoio a pessoas viciadas.

Tratamento é difícil

O Ministério da Saúde defende que o tratamento dos usuários de crack não seja focado apenas na internação dos dependentes. No passado, usávamos a internação como a única forma eficaz de libertação da dependência, mas percebemos que o ideal é tratar a pessoa mantendo sua integração familiar, defende Patrícia Von Flach, da área técnica de saúde mental da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab).

O Estado não deve criar centros de internação. Essa estratégia não funciona , como já foi comprovado pela evolução dos tratamentos psiquiátricos. O ideal é que a pessoa receba acompanhamento clínico e psicológico e retorne ao lar para não perder o contato familiar, explica.

O psiquiatra Luiz Guimarães, especialista no tratamento de dependentes químicos do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, disse que os usuários de crack de classe média costumam ter um índice maior de recuperação que as pessoas da classe baixa.

O médico explicou que os usuários de droga das camadas mais abastadas possuemuma rede social mais sólida em torno deles, o que contribui muito para o abandono do vício.

Os dependentes de classe média têm suporte social maior, como o apoio familiar, ajuda da esposa, dos pais, possuem um suporte financeiro melhor, têm emprego. Tudo isso conta muito para a recuperação deles, afirmou o especialista. Já pessoas mais carentes, muitas vezes têm uma família desestruturada. Sem apoio dos familiares, elas acabam voltando a usar o crack.

Tráfico está pulverizado na capital

A venda de crack em Salvador está pulverizada entre pequenos traficantes, sendo que a maioria deles atua na periferia da cidade, informou o delegado Hélio Jorge da Paixão, diretor do Departamento de Narcóticos da Polícia Civil.

Segundo o policial, todos os dias são presos pequenos traficantes em Salvador, mas isso não resolve o problema. Para o delegado, o desafio é combater os grandes atacadistas de crack em Salvador. Hélio Jorge destacou ainda a importância de impedir a entrada da droga na Bahia, já que a fabricação é feita nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.
Autor: Seção Notícias
OBID Fonte: Correio da Bahia