Alcoolismo na adolescência persiste na vida adulta

Pesquisa divulgada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) aponta que metade dos homens que faziam uso pesado de álcool na juventude permanece com hábito no início da idade adulta. Esta constatação faz parte dos resultados apresentados pela pesquisa sobre o comportamento de beber pesado divulgada pela organização não governamental e uma das principais fontes de dados sobre o tema no país.

A pesquisa revela, que aqueles que descobriram as bebidas alcoólicas antes dos 15 e também entre 15 e 17 anos eram mais propensos a desenvolver problemas de alcoolismo do que os que esperaram até os 18 para começar a beber. Os resultados mostraram que o aumento de risco de desenvolver o alcoolismo era quase 50% maior nos jovens que se iniciavam no álcool antes dos 18 anos de idade.

Os cientistas acreditam que a ingestão de grandes quantidades de álcool em idades precoces pode levar a alterações nas funções cerebrais que poderiam favorecer a busca de prazeres imediatos obtidos com o consumo exagerado de álcool, não se preocupando com os futuros riscos. Os pesquisadores ligados aos institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos acreditam que um alerta deve ser levado aos pais e aos educadores. As evidências científicas mostram que as crianças devem ser protegidas do contato com o álcool antes dos 18 anos.

Esses números ajudam a ilustrar um problema que merece atenção. Mais vulneráveis, os jovens que bebem cada vez mais cedo e com mais freqüência estão expostos não só com problemas de vícios na fase adulta, mas problemas psicológicos, mentais e físicos, como o desenvolvimento de cirrose. A bebida ainda pode abrir caminho para outras drogas.

Segundo o psiquiatra Josemar Honório Barreto, o jovem é mais vulnerável aos efeitos do álcool e o consumo nesta faixa etária pode causar depressão e até levar ao suicídio, deixar o adolescente mais agressivo e o exposto a situações de violência, gravidez não planejada, queda no rendimento escolar, além de provocar alterações cerebrais em longo prazo e acidentes de trânsito. “As consequências negativas deste hábito são graves. É na juventude que o adolescente está formando sua personalidade. No entanto, podem trazer estes efeitos para o início da idade adulta”, afirma.

O psiquiatra explica que doenças como a cirrose, normalmente apareciam quando a pessoa tinha aproximadamente 40 anos, hoje estão aparecendo mais cedo. “O jovem é impulsivo e vive o momento sem pensar no futuro”, ressalta. Além do mais a mídia condiciona o cérebro a pensar que é impossível se divertir sem a bebida. “O jovem não sai para se divertir, ele sai para se embriagar”, conclui Josemar.

Existem alguns pais que levam o adolescente ao alcoolismo. Muitos jovens aprendem a beber com o exemplo dos pais. “Existem pais que já colocam a chupeta do bebê no copo de chopp, não imagina o crime que esta cometendo”, completa o médico.

Para o psiquiatra Josemar, a solução seria conscientizar os pais e mudar o conceito de que a bebida traz felicidade, incentivando o jovem a buscar outras fontes de lazer, além de aumentar o ICMS dos bares que vendem bebidas, fiscalizar intensivamente os bares para que não vendam bebidas para menores, fiscalização no trânsito e com toda certeza a proibição de propagandas com incentivo a bebida.

O palestrante e participante dos Alcoólicos Anônimos (A.A), M.S.O, 23 anos, ressalta que começou a beber aos 14 anos por influência de amigos e quando percebeu já estava completamente dependente do álcool, além de estar envolvido com as drogas. “Quando procurei o A.A estava no fundo do poço, assim como muitos jovens que procuram esta instituição. Se tivesse uma outra chance, jamais beberia na minha vida, hoje vivo assim sem dar o primeiro gole”, finaliza.

Já o estudante S.A.L, 21 anos, começou a beber com seus 13 anos porque tinha complexo de inferioridade, com o álcool também vieram as drogas. Ele afirma que só começou a participar das reuniões como uma forma de “pagamento” para a Justiça. “Não adianta procurar o A.A se a pessoa não quer mudar, eu quis mudar e faz dois anos que eu não bebo e não uso drogas”, ressalta.
Na maioria das vezes, quem procura ajuda no AA é a família do jovem, quando ele já está envolvido com drogas, mas isso está mudando. Cada vez mais jovens, entre 19 à 30 anos, procuram a instituição por decisão própria, como uma forma de ajuda.

O palestrante M.S.O explica que o envolvimento com a bebida tem três fases. A primeira é a da alegria, a segunda é a que afeta o sistema nervoso e, por fim, a que a pessoa chega ao fundo do poço. “Quando está na fase da alegria, o jovem deixa rolar, mas quando já está envolvido demais o jovem procura ajuda”, diz.
Para ele, se o governo arrecada impostos com a venda de bebidas, por outro gasta mais dinheiro em saúde no tratamento de alcoólatras, essa tendência pode ser alterada com a proibição de propagandas de bebida e com a conscientização os país.

A conscientização precisa melhorar. Para o grupo Alcoólicos Anônimos (AA), é necessário desenvolver mais campanhas de conscientização dos males da bebida. Essa é a opinião de voluntários do grupo, que não podem se identificar, conforme regra do AA. Eles ainda enfatizam que é necessário que a família seja um referencial para o jovem. Para eles, é fundamental transformar a realidade dessas pessoas.
Autor:
OBID Fonte: A Gazeta