O estreito caminho de volta à infância

O rosto é de uma criança, mas a história de vida amedronta até adultos mais vividos. O corpo frágil guiado por um olhar triste e incerto abriga um trauma que rasga a alma de quem vê e ouve Mário(*), de 11 anos. Aos 5, a própria mãe o levava à Pedreira Prado Lopes, aglomerado da Região Nordeste de Belo Horizonte, para comprar tabletes de maconha que seriam vendidos no varejo. Passados não mais que dois anos, ele dava seu primeiro trago na erva, que abriu as portas para que entrasse de vez no submundo das drogas, vendendo substâncias ilegais por conta própria. Na companhia de meninos como ele, em vez de jogar futebol, “fumava maconha”, como recorda. Hoje, com o pai preso e a mãe morta, está protegido em um abrigo e, ao contar sua história, garante que ultimamente só fuma “Derby azul”. O menino franzino e sua história são apenas a ponta visível de uma realidade que avança tão assustadora quanto silenciosamente em Minas e no Brasil, onde cada vez mais cedo crianças se tornam dependentes e vendem a infância em troca de miseráveis porções de pedras, cola, erva, pó…

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não prevê tratamento para dependência química e casas de internação compulsória para meninos e meninas de até 11 anos. Na falta de política pública específica para tratar dessa parcela de pequenos viciados, a única saída atualmente é encaminhá-los a profissionais que trabalham em abrigos e que são vistos como verdadeiros “anjos” pela pequena parcela de crianças que tem a sorte de chegar a esse destino antes de morrer à bala ou de overdose. Psicólogos, assistentes sociais, filósofos ou voluntários representam, na maioria das vezes, o carinho e a ajuda que esses meninos nunca conheceram. Às vezes tornam-se mais: a referência mais próxima que eles têm de família e lar. Apesar da realidade dura do processo de recuperação, talvez more aí a esperança para que crianças tão marcadas pela dor cheguem à adolescência e à fase adulta com menos cicatrizes.

Até bater às portas de um abrigo, porém, eles formam uma legião de meninas e meninos com aspecto cadavérico, olhos avermelhados e pele ressecada, que se alimentam do cheiro embriagante do tíner ou da fumaça destruidora do crack. Uma multidão que se agiganta e mete medo em quem anda pelas ruas da capital e até do interior.

Levantamento da Subsecretaria de Políticas Antidrogas do governo de Minas revela que em 2008 20,4% dos dependentes químicos atendidos em instituições estaduais e conveniadas afirmavam ter tido o primeiro contato com drogas antes dos 11 anos. Como se o quadro não fosse preocupante o suficiente, o acompanhamento da estatística revela que esse número deu um salto desde 2004, quando o percentual era de 8%. Dados mais alarmantes mostram ainda que a quantidade de crianças à procura de ajuda aumentou 75% desde o ano passado, se for computado o primeiro semestre de 2009.

METAMORFOSE

A faixa etária do pequeno Mário é a que mais preocupa, exatamente pela falta de um serviço específico voltado para histórias como a dele. Desconfiado, o menino entra no escritório do abrigo onde mora, para conversar com a equipe do Estado de Minas. Senta-se no sofá e é convidado a falar da escola e das brincadeiras de que mais gosta. “Adoro matemática e português”, diz. O entusiasmo é subitamente cortado pelas lágrimas que, por alguns segundos, brotam nos olhos do pequeno, que começa a chorar. A interrupção é breve. Como um homem adulto que rejeita parecer frágil, ele enxuga o rosto e firma a voz, disposto a falar da sua vida. Aos 11 anos, não tem certeza de quem é seu pai biológico, mas enumera a quantidade de padrastos que já teve.

“O pai que realmente gosto está preso por tráfico. Tive um padrasto que morreu de infarto e o último, que também era traficante, de Aids. Tenho sete irmãos. Minha mãe descobriu que também tinha Aids, mas morreu queimada em um acidente”, conta. “Para meu padrasto não bater na minha mãe, ela tinha de comprar tabletes de maconha na Pedreira. Ela gostava de me levar, para não ir sozinha. Quando chegava em casa, eu ajudava a cortar a barra (de maconha prensada) e a separar em trouxinhas. Aprendi rápido.” O menino lembra que, como recompensa, a mãe lhe dava R$ 2 e uma garrafinha de refrigerante.

Ao completar 7 anos, a inocência da breve infância já se fora. Aos 8, virara traficante e fumante inveterado. “Quando minha mãe morreu, fiquei com meu padrasto. Como não queria comprar maconha para seu negócio, ele me batia muito, com 50 chineladas de um chinelo grosso de borracha.” Mário comprou revólver e mais drogas para revender. O lucro se convertia em maconha e em maços de “Derby azul”.

Quando o padrasto morreu, o menino foi morar com o avô. “Eu aprontava muito e meu avô não deu conta. Ele me passou para minha tia, que também não deu conta. Aí, fui parar em abrigos”, diz. A vida não ficou fácil, mas hoje, com a atenção que recebe dos funcionários, ele se permite sonhar e até brincar. Durante a entrevista, entre tantas histórias tristes, Mário mostrou habilidades que o deixam muito feliz e confiante: leu fluentemente uma frase e conseguiu, com muita rapidez, desvendar o segredo de um brinquedo que exige raciocínio lógico. “Quando crescer, quero ser taxista, pois vou ter meu próprio carro e dinheiro toda hora”, planeja. Mas, para isso, ainda depende de um bom tempo sob as asas de seus anjos.

(*) Os nomes das crianças citadas nesta reportagem são fictícios

Legião

Segundo dados do Observatório Mineiro de Informações sobre Drogas (Omid), as portas de entrada para o vício são, em geral, a maconha, o álcool e o crack. Além das crianças, adolescentes engrossam a lista dos consumidores mais contumazes e frequentes na fila de atendimento do SOS Drogas, vinculado ao Centro de Referência em Álcool e Drogas (Cread). Um quadro que reflete o resultado de pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), segundo a qual há no Brasil 1 milhão de jovens de 6 a 17 anos com dependência química em drogas.
Autor: Ingrid Furtado
OBID Fonte: Estado de Minas