A sedução do cigarro

O Brasil avançou muito nos últimos anos na regulação e controle do tabagismo e segue fazendo progressos importantes que colocam o país na vanguarda da prevenção do início do hábito de fumar. Bom exemplo são as advertências sanitárias estampadas nos produtos de tabaco a partir de maio, criadas com base em pesquisas que comprovam sua eficácia em reduzir o poder de atração do cigarro. Nesse sentido, o projeto de lei assinado dia 22, pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, traz avanços e merece reflexão. O projeto norte-americano proíbe cigarros com sabor. Esta é uma idéia que vem sendo discutida no Brasil por meio do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que desde 1989 articula ações educativas, legislativas e econômicas com o objetivo de prevenir a iniciação ao tabagismo.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o tabagismo é uma doença pediátrica, já que cerca de 90% dos fumantes regulares começam a fumar antes dos 18 anos. Documentos internos das companhias de tabaco, divulgados em decorrência de ações judiciais, revelam que os jovens são o público-alvo da indústria. Em meados dos anos 1980, as pesquisas que resultaram na criação dos primeiros cigarros com sabor de chocolate, baunilha e licor foram consideradas revolucionárias, por terem descoberto um apelo eficaz, focado nos fumantes mais jovens, já que, num primeiro contato com o cigarro tradicional, têm certa aversão ao gosto do produto tradicional. Pesquisa feita entre 2002 e 2005 pelo Inca, em parceria com a Universidade John Hopkins, dos Estados Unidos, revelou que 44% dos estudantes brasileiros de 13 a 15 anos que fumam regularmente, preferem cigarros com sabor. A pesquisa ouviu 13.518 alunos de 170 escolas de 10 capitais brasileiras.

É justamente para comunicar os reais efeitos do tabagismo – os graves danos à saúde – que o Brasil obrigou, a partir de 2001, os fabricantes de cigarro a estamparem nos maços imagens impactantes de advertência sanitária. O mesmo motivo levou o governo brasileiro a proibir a descrição dos produtos como light ou baixos teores, que transmitem a falsa ideia de que são menos prejudiciais à saúde.

Atualmente, 16% dos brasileiros acima de 15 anos, moradores das capitais, são fumantes. Esse percentual já foi maior. Em 2003, eram 18,8%. E em 1989, quando se pesquisaram capitais e zonas rurais, chegou a 32%. Apesar da diferença metodológica entre as pesquisas, está clara a tendência de redução da população fumante no Brasil. É um avanço a ser comemorado por toda a sociedade. Mas ainda há muito a fazer em relação à política de controle do tabagismo. Uma boa ideia é estudar a implementação no país da iniciativa do presidente Obama, que, ao assinar a lei, afirmou que foi um dos tantos adolescentes seduzidos pela indústria do tabaco.
Autor: Editoria Opinião
OBID Fonte: Estado de Minas