Dependência que mata a infância

Por trás da disseminação do crack no DF, esconde-se a face mais perversa dos traficantes de drogas. Na ânsia de aumentar o número de clientes, nem crianças são poupadas. Aproveitando-se da desestruturação familiar que leva quem tem menos de 12 anos para as ruas eles introduzem a dependência cedo nesse grupo de inocentes.

Loló e cola de sapateiro sumiram da lista de motivos que levam os pequenos brasilienses a ser internados em clínicas de reabilitação. No DF, existe apenas um lugar, sem fins lucrativos, que ajuda na reabilitação dos dependentes de crack e outras drogas de poder devastador. A ONG Transforme recebe crianças e adolescentes que tiveram suas vidas arrasadas pelas drogas. Nos últimos meses, o crack foi o móvel da maioria das internações.

Segundo a coordenadora do projeto, Cláudia Brito, mais de 200 pessoas já passaram pela clínica de reabilitação, desde abril de 2008, data em que abriu as portas. “Presenciamos um crescimento assustador de criaças e adolescentes que chegam aqui completamente dependentes. Muitos deles fogem. De cada dez que entram, apenas dois conseguem levar o tratamento até o final”, conta, lembrando que os usuários precisam de seis a oito meses no local para se livrar da dependência.

Cláudia explica que, na maioria dos casos, os jovens pertencem a famílias desestruturadas. Há ainda crianças e adolescentes que não possuem qualquer vínculo familiar ou residência fixa. “Nesses casos, o tratamento fica mais difícil. Quando isso ocorre, depois do tratamento o usuário volta para o consumo”, afirmou.

CONSELHO TUTELAR

Atualmente, existem 13 rapazes em tratamento na Transforme, todos envolvidos com crack. Cláudia explica que em muitos casos, o próprio Conselho Tutelar, da Vara da Infância e Juventudo (VIJ) encaminha as crianças e adolescentes para a ONG.

“Precisamos controlar brigas, tremores, vômitos e alucinações provocados pela abstinência do crack. É uma rotina diária desgastante já que trabalhamos com terapias. Não ministramos medicações”, explicou.

O corpo é franzino e a voz é de menino, mas a sede pelas pedras é a mesma de um adulto. O boné esconde os olhos durante a entrevista.

Rafael (nome fictício), 15 anos, não aparenta ter mais do que 12. Conversando em um dos jardins mais afastados dos monitores, o menino contou como mergulhou no crack.

“Meu pai fumava pedra e jogava a fumaça na minha cara. Daí me deu vontade de experimentar. Minha família mora em Ceilândia”, contou.

Rafael lembrou que antes de chegar na Transforme já estava morando na rua, longe da avó, a pessoa que mais ama. “O que me segura aqui é vergonha de ter roubado dinheiro dela. Ela deixava para pagar a conta de luz e eu pegava. Ia direto para a rua comprar pedras”, disse.

O fato de ter um primo traficante também influenciou Rafael e o levou facilmente para as drogas.

“Sempre tive muita facilidade para conseguir a droga. Até uma pessoa eu já matei, mas nunca fui pego pela polícia”, revelou, dizendo que a vítima era outro usuário.

O adolescente está internado há 15 dias. “Nos primeiros dias sem pedra eu pirei, tremia muito, vomitava e fui levado para o hospital.

Não sei quanto tempo vou aguentar ficar aqui”, confessou.

SERVIÇOS

A Transforme, instituição que ampliou suas atividades para atender crianças de rua envolvidas com drogas, entre elas o crack, fica localizada no Lago Norte, na Quadra MI 3, Conjunto 2, Casa 8. O telefone para contato é: 3468 7856
Autor: Carlos Carone
OBID Fonte: Jornal de Brasília