80% recusam atendimento na Cracolândia

Cerca de 80% dos moradores de rua -a maioria consumidores de crack- abordados por agentes de saúde nos dois primeiros dias da ação na cracolândia recusaram atendimento. Boa parte dos que passam o dia nessa região do centro de São Paulo nem sequer responde a perguntas das equipes.

Até o final da tarde de ontem, os agentes haviam feito 332 abordagens. Sessenta e seis pessoas concordaram em ir para postos de saúde passar por avaliação médica. Doze precisaram ser internadas. Segundo o auxiliar de enfermagem Taylon Ramos, que atua na base das equipes de saúde, mesmo os que aceitam ser atendidos acabam voltando, às vezes no mesmo dia, para a rua. “Normalmente eles vão, tomam banho e retornam.”

Agentes de saúde disseram que a presença ostensiva da polícia retrai ainda mais os usuários de crack. Eles dizem que é preciso obter a confiança dos viciados, o que leva tempo. A Folha presenciou cinco abordagens e só uma pessoa aceitou atendimento. Na av. Duque de Caixas, uma mulher com cerca de 40 anos, questionada se estava disposta a ir até o posto de saúde, respondeu: “Hoje não vou, não. Hoje vou ficar aqui fumando [crack]”.

De manhã, uma jovem de 15 anos foi retirada do gramado da estação Júlio Prestes. Ela disse estar ali havia três dias, sem conseguir se mover. Segundo os agentes, ela tem tuberculose e é viciada em crack. A nova intervenção do Estado e da prefeitura, batizada de Ação Integrada Centro Legal, prevê internação em hospitais por até 30 dias de pessoas com doenças graves, problemas psiquiátricos e dependentes químicos. As internações podem ser voluntárias, involuntárias após diagnóstico ou compulsória, via ordem judicial.

Segundo coordenadores da operação, há 60 leitos em hospitais estaduais e municipais preparados para esse fim. A prefeitura diz que, após a internação, viciados serão encaminhados a centros de tratamentos de dependentes químicos. Parte dos 120 agentes está na cracolândia desde janeiro. Desde quarta-feira, eles têm feito abordagens das 9h às 22 h.

A ação de saúde é acompanhada pela polícia. São 70 homens que, diz o comando da PM da região central, ficarão na cracolândia e imediações por tempo indeterminado.

Promotora

A promotora de Justiça Laila Shukair enviou ofício à prefeitura pedindo informações sobre a intervenção na área. Laila defende que, em alguns casos, a internação de viciados seja compulsória. “Adianta chegar no cara que bebeu, fumou, que está “babando”, e perguntar se quer ser internado?”
Autor: Conrado Corsalette
OBID Fonte: Folha de São Paulo