No Rio, 90% dos meninos de rua usam crack

O Rio começa a ter de enfrentar um fantasma que ronda há muito as ruas de São Paulo: o fantasma do crack. “Proibida” pelas facções armadas até o início da década, a droga se popularizou e hoje é vendida em cerca de 300 favelas cariocas, segundo a Secretaria de Assistência Social do município.

A prefeitura aponta que o uso de crack por menores de 18 anos que vivem na rua e são monitorados pela secretaria era de 13% há quatro anos e agora está em 90%. Mas a administração municipal e o governo estadual oferecem apenas 12 vagas para internação de crianças (9 a 12 anos) e 40 para adolescentes (12 a 18 anos).

Diante disso, governo e prefeitura lançaram nesta semana um plano que propõe a construção de mais quatro unidades. “São Paulo nos serviu de alerta. Temos feito um esforço com Ministério Público e polícia para evitar que se consolide um grande espaço de consumo de crack”, diz o secretário municipal Fernando William.

Segundo ele, a classe média também já começa a consumir o “zirré” (ou desiré, mistura de crack com maconha).
A chegada do crack ao Rio teve “atraso” de uma década em relação a São Paulo. Traficantes impediram a entrada em grande escala devido ao alto potencial de mortalidade, que não dava lucros por muito tempo.

A “epidemia” se consolidou nos últimos dois anos. Em 2007, houve 720 apreensões no Estado, ante 1.211 em 2008 e 805 só até maio deste ano. Segundo Marcus Vinícius Braga, da delegacia antidrogas, o crack foi imposto por “venda casada” ao Comando Vermelho pela facção paulista PCC. “O traficante falou que só venderia cocaína [ao outro] se este também comprasse crack”, diz.

O consumo ocorre sobretudo nos acessos às favelas. “Os consumidores têm de sair das comunidades porque não respeitam nem a lei dos criminosos, mas não podem se afastar porque precisam estar perto do vendedor”, explica o psiquiatra Jairo Werner, da Uerj.

A moradora de um morro no centro do Rio contou à Folha que o filho de 17 anos chegou a ser espancado duas vezes por traficantes e passou uma semana desaparecido até voltar para casa, ontem de manhã. Ele era o 48º na fila de espera por uma internação na clínica de Barra Mansa (interior do Rio). “Já pensei em dar queixa na delegacia. Na prisão estaria mais seguro do que na comunidade ou na rua”, diz a mãe.

Na Casa Viva, única unidade da prefeitura para internação de crianças, em Vila Isabel (zona norte), vive Leila (nome fictício), 11, moradora da Ilha de Guaratiba (zona oeste). Ela fugiu de casa com uma amiga. Para consumir drogas, a menina fez programas com adultos.
Autor: André Zahar
OBID Fonte: Folha de São Paulo