Coquetel de risco

Relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) revela que o número de usuários de drogas no Brasil cresce visivelmente. O país se destaca como o segundo do mundo que mais consome cocaína – regularmente 870 mil pessoas utilizam a droga. A psicofarmacóloga Solange Nappo, que há 17 anos se dedica a pesquisar o uso do crack na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que os dependentes estão buscando estratégias para minimizar os efeitos da droga e manter os vínculos sociais.

Em entrevista à FOLHA, ela também discute o aumento de usuários na classe média e aponta alternativas para reduzir o alto consumo.

Para minimizar os efeitos do crack o usuário começou a misturar outras drogas, conforme foi detectado em sua pesquisa. Quais substâncias são essas?

Hoje é muito difícil encontrar usuários somente de crack. Algumas vezes associam drogas ilícitas ou até medicamentos. O objetivo é contrabalancear os efeitos para se manter em sociedade. Por exemplo, começaram a ingerir álcool, que produz os efeitos de forma um pouco mais branda. Segundo os usuários, a psicose (mania de perseguição) e a fissura (desejo incontrolável pela droga) diminuem e eles ficam um pouco mais calmos, conseguindo viver melhor. Acontece que a pessoa associa uma outra droga tão possível de causar dependência quanto a primeira. Quase todos os usuários de crack usam álcool. Eles chegam a beber um litro de pinga por dia. Além disso, o dependente passa a associar a maconha, que também trouxe uma forma mais branda de utilizar o crack.

O que essa mistura pode causar?

De toda forma a pessoa está usando uma droga que atua no sistema nervoso central. O álcool potencializa os problemas cardíacos que a cocaína traz e a maconha pode trazer algum efeito nesse sentido. Para o usuário, a mistura é boa. É uma redução de danos, ou seja, ele não vai parar de usar e precisa encontrar uma maneira menos drástica para ter um pouco mais de qualidade de vida e se manter vivo. O crack sozinho dura muito pouco, corta todos os elos. Em um mês a pessoa já é compulsiva e em um ano já morreu.

Há alguma vantagem nesse novo hábito?

A pessoa consegue se manter em sociedade e deixa de viver em guetos, não se misturando com outros usuários e não entrando em brigas. Ao voltar para o nosso convívio, ela tem mais chance de continuar a vida.

Na sua opinião, porque o consumo de crack tem aumentado especialmente na classe média alta?

Esse aumento acontece justamente porque começaram a misturar outras substâncias com a droga. Essa pessoa consegue não ser excluída da sociedade, trabalhando, ficando dentro de casa e mantendo vínculos de afeto. A pessoa fica menos perigosa para a sociedade. Mas obviamente que o usuário vai desviar dinheiro para comprar a droga. Há uns cinco anos detectamos a entrada da mulher na cultura do uso de crack. Para conseguir a droga, ela se prostitui sem se proteger. Um problema vai desencadeando muitos outros.

E quais as alternativas para reduzir o alto consumo?

O usuário de crack é o mais difícil de largar. Primeiramente ele precisa ter um pouco de educação para entender o que vai acontecer com ele ao usar a droga. É uma prevenção primária. Ele precisa se conscientizar da situação, pois o usuário tem a mania de minimizar o efeito que ele vai ter. Quando eu digo prevenção não é somente mostrar o que a droga traz de ruim. Traz prazer sim, mas também uma série de problemas. Um segundo passo é buscar um tratamento na possibilidade de largar a droga. O terceiro passo, depois de tentar todas as possibilidades, é ajudá-lo na redução de danos. Você vai ajudar a pessoa a usar a droga de uma forma mais segura, fazendo o processo de diminuição até a retirada.
Autor: Paula Costa Bonini
OBID Fonte: Folha de Londrina