Crack: pais pedem socorro à polícia para salvar filhos

“O crack veio para desorganizar tudo”. Essas palavras do coordenador do Núcleo de Prevenção de Drogas da Polícia Federal (PF), Expedito Jorge, mostram o desespero de inúmeros pais que desistem de lutar contra a dependência de seus filhos.

De quatro a cinco pais procuram ajuda da PF por semana solicitando indicação de clínicas de tratamento para dependentes de crack. Muitas famílias não vencem a luta de acabar com a dependência por meios próprios e acabam solicitando ajuda de instituições e até da Justiça.

Na Delegacia de Polícia de Cobilândia, em Vila Velha, os policiais atendem a uma média de 20 pais por mês pedindo ajuda para seus filhos.

Esse não foi o caso do cobrador de ônibus Judson Carlos Bragança, que na noite de terça-feira ouviu o filho Judson Formazier Bragança, de apenas 17 anos, ser assassinado dentro da própria casa por ter dívida de drogas com traficantes. O pai disse que lutou durante anos para resgatar o filho do crack.

Em alguns casos mais extremos, os pais pedem orientação da polícia para solicitar à Justiça a expulsão do filho de dentro de casa porque não suportam os furtos diários de objetos e aparelhos eletrônicos, agressões e até ameaças de morte dos filhos.

“Os pais são menos pacientes, logo desistem da luta e, por isso, querem os filhos fora de casa. Já as mães têm mais persistência para ajudar o filho a vencer “, revelou uma investigadora. Ela conhece casos em que magistrados determinaram a expulsão de jovens de dentro de casa.

Os números apontados pela Delegacia de Cobilândia e pela Polícia Federal são de realidades de pessoas de boas condições financeiras, pois o crack, conhecido como a droga devastadora, atinge cada vez mais jovens e profissionais bem-sucedidos das classes média e alta.

Drama

Funcionária pública , mãe de um usuário de crack
“Tenho um filho lindo e que sempre deu muito valor à saúde, pois é esportista e lutador de jiu-jutsu. Ele tem 28 anos, mas é dependente do crack. A gente já viveu um drama terrível em que ficamos de três a quatro dias sem nenhuma notícia dele. Já internei meu filho numa clínica de reabilitação em Cachoeiro de Itapemirim e gastei, em média, R$ 3 mil por mês. O custo é elevado, e ainda tem as recaídas, e isso é que é o pior. A gente tem que ter muita força para conseguir dar apoio a eles.”

A classe média na delegacia

Há apenas três meses atuando na Delegacia de Goiabeiras, em Vitória, mas com ampla experiência na prevenção ao tráfico de drogas, o delegado Adelias Vieira da Costa, com frequência, vê-se diante de jovens usuários de drogas, muitos deles de bairros de classe média, como Jardim da Penha e Mata da Praia.

Flagrados nas ruas consumindo droga, os jovens são levados à delegacia, onde assinam um Termo de Compromisso para, posteriormente, se apresentarem à Justiça.
Para Adelias da Costa, a alteração da legislação, que pôs fim a detenção dos usuários, acabou contribuindo para o aumento do consumo.

Sem tratamento

“Se não há demanda, a oferta diminui, mas a procura por droga aumenta a cada dia. Onde quer que se vá há usuários”, diz o delegado, lembrando que não há estrutura na rede pública para tratar usuários de drogas.

Na Delegacia Especializada de Tóxicos e Entorpecentes (Deten), onde atuou por quatro anos, Adelias da Costa lembra de muitos pais que pediam ajuda para livrar seus filhos da dependência química. (Cláudia Feliz )

“Temos advogados e até autoridades que pedem ajuda para seus filhos e parentes”
Expedito Jorge – Núcleo de Prevenção de Drogas da Polícia Federal

Após assinar Termo de Compromisso na polícia, usuário de drogas é intimado a comparecer à Justiça

Mensalmente, 60 usuários de drogas reúnem-se em Vitória para ouvir especialistas falarem sobre aspectos psicológicos, médicos e legais ligados à dependência química que os fez cair nas malhas da Justiça.

O trabalho, coordenado pela juíza Maria Nazareth Cortes Giestas, do Terceiro Juizado Especial Criminal de Vitória, tem contribuído, segundo ela para que muita gente não reincida no uso de drogas.

São usuários que, após flagrados, assinam Termo de Compromisso na delegacia de polícia, e são intimados a comparecer ao juizado, onde acontecem as reuniões mensais com especialistas voluntários.

Com a família

A juíza Maria Nazareth Giestas explica que também participam das reuniões representantes das famílias dos usuários. No próximo dia 12 de agosto, um novo encontro está agendado.
Há cinco anos atuando no Terceiro Juizado Especial Criminal de Vitória, a juíza constata que os usuários têm, em sua maioria, 25 anos, no máximo. E que as drogas mais usadas são cocaína e crack.

Quem é primário recebe advertência e tem o processo arquivado. Havendo reincidência, é denunciado e punido com pena alternativa. Claudia Feliz

Telefone celular é moeda de troca na “boca”

Telefones celulares são os objetos mais usados por usuários de crack como moeda de troca nas bocas-de-fumo na Grande Vitória. De acordo com o coordenador do Núcleo de Prevenção de Drogas da Polícia Federal, Expedito Jorge, um aparelho equivale a oito pedras de crack. Até um cortador de azulejos, instrumento de trabalho de um pai, já foi roubado pelo próprio filho para ser trocado em boca de fumo. Expedito Jorge lembrou um caso de uma família onde a mãe, após internada em hospital durante alguns dias, voltou em casa e não encontrou nenhum eletrodoméstico. Ele chamou a atenção para o efeito devastador da droga. “Uma única pedra é capaz de provocar a dependência. O efeito do crack é muito rápido”.
Autor: Natalie Marino
OBID Fonte: A Gazeta