Efeito do álcool é altamente destrutivo no organismo infantil

Um fato ocorrido nesta semana levantou a discussão sobre os efeitos do álcool no organismo infantil. Uma menina de 11 anos foi atendida no Pronto-Socorro após passar mal ao ingerir bebida alcoólica. A menina conseguiu a bebida na casa de uma vizinha, no bairro Vila Martins. O caso está sendo investigado pela polícia.

Situações como essa são mais corriqueiras do que pensamos. De acordo com a médica psiquiatra Ana Cecília Marques, doutora em Ciências pela Unifesp e pesquisadora do Instituto Nacional de Políticas sobre Drogas do CNPQ, crianças e adolescentes têm fácil acesso ao álcool porque não existe uma política pública efetiva de controle sobre a venda do produto, como a que está sendo realizada atualmente contra o fumo. “Não existe campanha dizendo que a criança não pode beber e que informe sobre os malefícios do álcool”, diz.

Segundo ela, quem determina a política para o álcool é a indústria, por isso facilidade de acesso. Ela conta que uma pesquisa realizada em cidades do Interior revelou que 65% das crianças e adolescentes que participaram do estudo conseguiram comprar facilmente a bebida nos estabelecimentos comerciais. O fato é preocupante.

Isso porque, diz, o álcool é altamente destrutivo para a criança. “O organismo infantil está em formação e as drogas psicotrópicas agem diretamente sobre o cérebro alterando toda a estrutura do organismo”, explica a médica. Ela lembra que o homem somente completa a formação da estrutura celular do cérebro por volta dos 22 anos. Nesse período, qualquer interferência pode ser altamente prejudicial.

“O álcool passa pela membrana do neurônio e vai agir diretamente no núcleo da célula, atrapalhando tudo”, ressalta Ana Cecília. Como o cérebro manda em todo o corpo, qualquer alteração pode resultar em prejuízos diversos.

“O consumo prolongado do álcool pode causar um comprometimento maior e essas alterações podem repercutir no próprio corpo”, observa a pesquisadora. A criança começa a apresentar uma série de problemas como queda no rendimento escolar, aterações de humor, alteração hormonal etc. “O álcool abole a memória, por isso a criança começa a ir mal na escola”, esclarece.

Além disso, o álcool altera a percepção crítica da criança à realidade, tornando-a mais vulnerável para as patologias, fica mais propensa à depressão, ao homicídio e até mesmo sujeita a tornar-se uma vítima fácil da violência como estupro, espancamento etc.

A pesquisadora enfatiza ainda que o organismo feminino é muito mais suscetível ao álcool que o organismo masculino. Ela atinge concentração sanguínea de álcool mais alta com as mesmas doses quando comparadas com os homens.

“A mulher adoece muito mais que o homem”, comenta. Ela vai apresentar mais cedo as doenças causadas pelo álcool como cirrose e hipertensão arterial. Conforme ela, isso acontece porque a bebida alteram os hormônios femininos e interferem nos fatores de proteção.

Para a pesquisadora, o consumo excessivo do álcool traz um alto custo para a saúde pública porque ele desencadeira uma série de doenças que demanda tratamento. E essa conta quem paga é a família ou o próprio indivíduo. “A saúde não dá conta de saber que a criança bebe. Quando o paciente é descoberto ele está totalmente dependente”, avalia.

Para ela, existe toda uma cultura de glamour em torno do álcool. A criança senta-se em frente à televisão e vê celebridades vendendo a bebida, tanto nas peças publicitárias quanto nas novelas. É ali que ela aprende a beber.

A pesquisadora finaliza dizendo que uma política pública efetiva que atuasse na prevenção e uma fiscalização mais rigorosa para fazer cumprir a lei que proíbe a venda de bebida alcoólica a menor de idade poderiam resolver boa parte dos problemas sociais e de saúde causados pelo álcool.
Autor: Seção Saúde
OBID Fonte: Jornal Cidade Rio Claro