Os doutores e as drogas

A medicina é feita de curas, perdas e milagres. Em meio a essa rotina de emoções, os médicos adoecem cada vez mais. Por escolhas que fazem na própria vida e por escolhas que interferem na vida dos outros. É essa realidade que os Diários Associados trazem nesta série de reportagens, um retrato de como está a saúde física e mental desses profissionais. A pressão rotineira sobre o profissional estoura na família, no paciente, provoca uso de drogas e o surgimento de várias doenças.

As reportagens retratarão os problemas enfrentados por boa parte dos 56.669 médicos que atuam do Nordeste, onde 93,5% da população é usuária do Sistema Único de Saúde, contra 72% do Sudeste. Sofrem mais os que trabalham no SUS. Aqueles que cobrem a falta dos colegas e do sistema, que se dedicam ao que há de mais bonito na profissão: salvar o próximo.

Não imune

O médico não está imune às fugas comuns da sociedade. Problemas pessoais somados a expectativas frustradas, péssimas condições de trabalho e jornadas exaustivas levam profissionais da área a buscar o divã ou escapes nada convencionais, como drogas e uso abusivo de medicamentos. Não é diferente da população em geral. Talvez seja mais grave, no entanto, por se tratar de um profissional que tem a missão de passar confiança e cuidar da vida.

A dependência debilita qualquer indivíduo, seja ele médico ou não. O risco de dependência química duplica, entretanto, quando uma pessoa tem algum distúrbio psiquiátrico, como depressão e ansiedade. É justamente isso que preocupa a categoria, uma vez que 44% dos médicos no Brasil admitem ter um desses distúrbios, em dados do livro A saúde dos médicos do Brasil. O número é 10,6% maior que o da população brasileira em geral, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM).

Estados do Nordeste não diferem desse contexto. Em Sergipe, por exemplo, cerca de 32 entre 100 médicos (31,8%) já usaram algum tipo de droga lícita ou ilícita, de acordo com a professora de Ética Médica da Universidade Federal de Sergipe, Déborah Pimentel. Um drama que, segundo ela, repete-se nos outros nove estados da região. Há cerca de três anos, por sinal, o Cisam, conhecido como a maior maternidade de Pernambuco em número de atendimentos, teve de demitir anestesistas por uso de Dolantina no trabalho. Derivado da morfina, o remédio normalmente é usado para deixar o paciente “zen” e dopado, semelhante ao que foi injetado no cantor norte-americano Michael Jackson. Só que termina sendo autoaplicado por alguns médicos durante os plantões, por ser de fácil acesso.

Anestesista na Paraíba há 31 anos, José Demir Rodrigues viu alguns de seus colegas se entregarem ao vício dos remédios, por falta de preparo emocional para suportar a pressão do trabalho. Ele não condena, mas pode se considerar um exemplo nessa função, vista como uma das mais vulneráveis ao consumo de Dolantina. O doutor desempenha um dos papéis mais estressantes da medicina, uma vez que cuida de todos os sinais vitais de um paciente.

José Demir é o único anestesista em cadeiras de rodas que está em atividade no Brasil, depois de perder o movimento das perdas num acidente de carro há 24 anos. Ele nunca se aventurou no uso de opioides. “Tenho hipertensão arterial, estresse emocional por conta da sobrecarga de trabalho, mas procuro resolver os problemas de outras formas. É importante que o médico reconheça quando precisa de ajuda e, se for o caso, peça afastamento do trabalho.”

O número

44% – Esse é o percentual de médicos que admitem ter distúrbios psíquicos, como depressão e ansiedade

A rota para o álcool

O envolvimento com drogas e remédios controlados entre os médicos é tão preocupante que o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco está criando o Núcleo de Atenção à Saúde do Médico para dar apoio aos profissionais que precisam de ajuda, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A unidade quer atuar em prevenção e oferecer atendimento reservado aos médicos que desejam se recuperar e voltar ao trabalho sem desgastes na imagem. Segundo o presidente do Cremepe, André Longo, o uso de remédios que podem causar dependência geralmente acontece no trabalho, nos plantões, onde a exposição é facilitada. “Infelizmente, o médico às vezes usa um medicamento para ficar mais tempo acordado, para dormir ou para amenizar um problema”, contou.

De acordo com o psiquiatra José Francisco Albuquerque, da UFPE, como o sucesso ou insucesso de tudo no hospital depende dos médicos, o vício pode se tornar um escape. Ele fala baseado num estudo que fez com 64 médicos dependentes químicos, mas que buscaram tratamento psiquiátrico. “A dependência pode se apresentar em profissionais com limiar baixo de frustração e emocionalmente instáveis. O primeiro passo geralmente é o álcool, que deixa as pessoas mais sociáveis”, afirmou o psiquiatra.

José Francisco explicou que, depois da bebida alcoólica, os médicos ouvidos no estudo citaram o abuso de tranquilizantes, derivados de opióides e ansiolíticos. “A Dolantina, por exemplo, dá uma sensação de prazer muito grande. Por isso, quando o médico passa a usá-la, tem a tendência de aumentar cada vez mais a dose. Mas o médico entra na dependência como um leigo. Não somos poderosos como pensamos. Pelo contrário”, ponderou o psiquiatra. (AM)

Remédio para dormir, outro para acordar

Uso de drogas costuma acontecer inclusive durante os plantões. Psiquiatras são os mais vulneráveis à dependência química

Perceber que precisa de ajuda não é algo fácil para quem está acostumado a lidar com dramas pessoais e a curar. Mas uma das áreas onde os profissionais estão mais vulneráveis à dependência química e a distúrbios é justamente a psiquiatria, seguida pelos setores de anestesia, patologia e oftalmologia. A informação é da professora Gislene Farias de Oliveira, doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba. Ela frisa que os psiquiatras, em especial, são muito exigidos de forma subjetiva e sofrem uma demanda de expectativas e imposições sociais maiores. “Os médicos, em geral, tentam atender a uma ideação social de perfeição quando na realidade isso é impossível”, ponderou.

O chefe do plantão da Policlínica Professor Arnaldo Marques, no Ibura, Zona Sul do Recife, Hesíodo de Farias Neves, 49 anos e 25 de formado, sabe bem o que é isso. Ele é psiquiatra, teve distúrbio do pânico e ficou sem sair de casa durante 15 dias por causa do estresse no ambiente de trabalho. “Eu precisava tomar antidepressivos para acordar e ansiolítico para dormir. Tinha medo de tudo, não conseguia sair de casa, não conseguia andar de carro. Cheguei à conclusão de que tinha de reduzir a carga de trabalho, mesmo perdendo em padrão de vida. O que compensa é o amor pela minha profissão, é dar o melhor de mim. Dizem que a gente fica insensível com o tempo, mas isso não aconteceu comigo”, observou Hesíodo.

Muitos plantões

Segundo o psiquiatra, muitos médicos passam a tomar remédios para dormir, por conta da quantidade de plantões, que desregula o horário biológico. “A gente não tem hora de almoço, não tem hora para dormir e vive saindo de um lugar para o outro. Quando chega na hora de descansar, o que pode ser a qualquer hora, o organismo não consegue e o profissional termina recorrendo a medicamentos, como Dormonid, Rivotril…”, explicou, acrescentando que “infelizmente” alguns colegas se drogam à noite e nos plantões.
Autor: Aline Moura
OBID Fonte: Correio Braziliense