Paulistano fuma sem saber

Estudo da USP aponta que concentração de partículas lançadas no ar principalmente pelos veículos pode equivaler a fumar até quatro cigarros diariamente. O problema é que a poluição atinge a todos, ao contrário da dependência do tabaco; Poluição representa 2 cigarros por dia.

São Paulo é um fumódromo a céu aberto. E a culpa não é da lei antifumo, que expulsou o tabaco para a calçada. Mas, sim, da poluição. Isso porque o ar paulistano aumenta o risco de doenças respiratórias e cardiovasculares tanto quanto fumar dois cigarros por dia. Dependendo da pessoa, da rotina e de onde mora, a quantidade pode ser até quatro vezes maior.

As estimativas são do Laboratório de Poluição da USP, feitas com base em pesquisas realizadas nos últimos anos na capital. Os dados coletados pela instituição apontam que o ar poluído aumenta o risco de doenças do pulmão e do coração de forma semelhante ao tabagismo e também pode levar à morte. Só na capital, a poluição é responsável por mais de 7 mil mortes por ano – 20 a cada dia.

“É como se fumássemos o cigarro ao longo do dia em vez de tragá-lo em alguns minutos”, explica o patologista Paulo Saldiva, diretor do laboratório. Os efeitos do ar poluído vão desde doenças respiratórias, como bronquite e asma, até câncer do pulmão, enfarte do miocárdio e derrame cerebral. O médico lembra, porém, que o cigarro é mais concentrado e causa uma série de outras doenças, incluindo vários tipos de câncer. “O risco é menor, mas ao contrário do cigarro, não dá para parar.”

Trânsito

O que determina a diferença entre “fumar” mais ou menos na cidade é o trânsito. Outro fator é a predisposição de cada pessoa a desenvolver doenças.

Os veículos são responsáveis por 95% das partículas inaláveis lançadas no ar, segundo a Cetesb, principalmente os que usam diesel, combustível mais poluente que álcool e gasolina. Saldiva estima que duas horas no trânsito equivalem a tragar um cigarro. Logo, motoristas e pessoas que passam muito tempo em congestionamentos – algo não raro em São Paulo – “fumam” ainda mais.

Caso extremo é o dos fiscais da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que chegam a passar as oito horas de trabalho respirando fumaça dos carros. Os marronzinhos foram estudados pelo pneumologista Ubiratan de Paula Santos, do Instituto do Coração (Incor). A conclusão foi que um terço deles tinha capacidade pulmonar igual à de uma pessoa que fuma dez cigarros por dia.

Além do trabalho, a casa também é um fator de risco. Estudos internacionais apontam que aqueles que vivem a até 150 metros de um grande corredor viário, como a Marginal do Pinheiros, por exemplo, têm o dobro de risco de desenvolver câncer de pulmão do que os que estão a 600 metros. E até na hora de praticar atividades físicas, o que é bom para a saúde, é preciso tomar cuidado para não acabar obtendo um efeito indesejado.

“Correr meia hora numa avenida de tráfego intenso, como a Paulista, é o equivalente a fumar dez cigarros”, diz Santos. Segundo ele, durante o exercício se respira profundamente e mais vezes do que em repouso, o que significa absorver mais poluentes.

Se o dia estiver frio e seco, pior ainda. Esse clima, predominante principalmente no inverno, favorece o acúmulo de substâncias tóxicas no ar.

A solução para quem não quer mudar da capital é cobrar políticas públicas que, por exemplo, privilegiem o transporte coletivo e exijam o uso de combustíveis menos poluentes, diz Antonio Chagas, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. “A doença não está mais na mão do médico”, diz. “Para resolver esse problema, as ações têm de ser tomadas em conjunto por toda a sociedade.”

Histórico

Não é de hoje que os efeitos da poluição do ar sobre a população de São Paulo causam preocupação – em 1973, a Prefeitura já havia criado um “conselho de combate à poluição”. Só nos últimos anos, no entanto, medidas mais objetivas começaram a ser adotadas pelo governo municipal.

A mais conhecida delas é o rodízio de veículos.

Criado em 1997, reduziu logo de início em 20% as emissões de poluentes, mas perdeu a eficácia ao longo do tempo, pois a frota de veículos na capital foi crescendo progressivamente.
Autor: Felipe Grandin
OBID Fonte: Jornal da Tarde