Filhos da dependência

Patrícia (nome fictício) mora em Ceilândia e está no quinto mês de gestação. A menina parou de fumar maconha, mas ainda consome tabaco e praticamente abandonou os estudos na 6ª série

A imagem da grávida feliz, cheia de planos e ciente da própria responsabilidade em relação a uma outra pessoa, cai por terra quando a futura mãe tem dois complicadores ao mesmo tempo: é adolescente e faz uso de drogas, álcool ou tabaco. Para medir o tamanho do problema no Brasil — onde 30% dos partos realizados são de meninas com menos de 18 anos, segundo o Ministério da Saúde —, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) avaliou a situação de mil adolescentes grávidas e constatou que quase 20% delas fumavam. Perto de 3% das garotas que participaram do levantamento ingeriam bebidas alcoólicas de forma abusiva e 1,7% consumia substâncias psicoativas ilícitas.

Para o coordenador do trabalho, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp, os dados são inaceitáveis, uma vez que refletem basicamente os índices de consumo de drogas verificados entre os adolescentes de um modo geral. “É claro que, perguntando, nenhuma paciente admite. Para termos certeza dos dados, fizemos a análise do fio de cabelo, já no terceiro trimestre da gravidez. Isso indica, portanto, que elas fizeram uso das substâncias provavelmente durante a gestação inteira”, destaca Laranjeira. Quanto às drogas mais pesadas, 0,6% das entrevistadas consumiu substâncias injetáveis e 1,7% utilizou maconha ou cocaína.

Acostumada a cheirar cola, fumar maconha e tabaco, Patrícia*, de apenas 13 anos, tenta rever os hábitos. “Depois que eu fiquei grávida, cheguei a usar maconha, mas parei. Agora, só fumo mesmo”, conta, com jeito de menina e barriga de cinco meses. O tabaco, para Patrícia, é o vício mais difícil de largar e, na avaliação de Ronaldo Laranjeira, corresponde ao índice mais assustador do levantamento. “Saber que 17,3% das meninas fumam durante a gestação é muito preocupante”, ressalta o médico.

De acordo com Laranjeira, que acompanhou com sua equipe a gravidez de todas as participantes da pesquisa até a hora de dar à luz, uma avaliação de pediatras com os bebês revelou prejuízos à saúde das crianças. “Foi um teste duplo cego. Ou seja, o médico não sabia que estava examinando a criança de uma mãe usuária de drogas, mas o resultado foi impressionante. Praticamente todos os filhos de meninas que fumaram maconha se mostraram mais irritadiços que os outros”, diz Laranjeira. José Domingues dos Santos Junior, ginecologista do Adolescentro, da rede pública do Distrito Federal, explica que, conforme a literatura médica, bebês cujas mães usam drogas costumar ser pequenos, magros e mais suscetíveis a infecções no primeiro ano de vida. Lábio leporino e más-formações no tubo neural, lembra Santos Junior, são também conseqüências da ingestão de drogas mais pesadas durante o desenvolvimento do feto.

Dependência

Arthur Guerra, psiquiatra e presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), esclarece que não há barreiras entre mãe e filho. “Tudo que a gestante bebe, fuma ou cheira passa para o feto”, enfatiza. De acordo com o médico, a gravidez na adolescência tende a agravar quadros de dependência. “Para algumas sortudas, esse momento acaba se tornando uma forma de amadurecer, criar responsabilidades, se conhecer. Mas para a maioria das meninas, a gestação se torna um estresse a mais. E aí pode ser ainda mais difícil largar o vício”, diz. Segundo Guerra, o índice de uso de drogas verificada na pesquisa da Unifesp é apenas uma confirmação. “Atesta o que nós já imaginávamos”, lamenta.

Nome fictício em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Estudos deixados de lado

Na pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os especialistas também traçaram o perfil das adolescentes grávidas que fazem uso de drogas. Mais de 80% delas não tinham planejado ter um filho, apenas 23% usavam contraceptivos e 60% relacionavam o abandono da escola à gravidez. No momento da pesquisa, 81% declararam que não estudavam. Patrícia, grávida de cinco meses, tem faltado muito à escola, onde cursa a 6ª série. A moradora de Ceilândia, que já tem o berço e algumas roupinhas para o bebê, explica suas dificuldades financeiras para pegar ônibus, mas destaca que vai continuar os estudos. “Antes, eu só queria ficar na rua, usar drogas. Fugia da escola, mas agora sei que tenho que ir às aulas”, diz a menina.

Para o ginecologista José Domingues dos Santos Junior, além de políticas públicas que envolvam todos os adolescentes, os médicos também precisam estar mais atentos à realidade das pacientes. “Sou da área, mas não tenho nenhum problema em falar isso. Os profissionais ainda têm dificuldade de abordar com o paciente duas questões: sexualidade e hábitos relacionados ao uso de drogas”, destaca. Para o especialista, muitas vezes o desinteresse está ligado à falta de estrutura. “Existe aquela preocupação: ‘E se a resposta sobre drogas for positiva?’ O pré-natalista que atende em um centro de saúde deficiente simplesmente não terá para onde mandar aquela gestante. Isso tem que ser levado em consideração.”

Drogas e gravidez

Confira os dados de pesquisa da Unifesp com mil adolescentes grávidas

17,3% fumavam durante a gestação
2,8% ingeriam álcool de forma abusiva
1,7% usavam drogas ilícitas
0,6% utilizavam drogas injetáveis

Perfil

67,3% não estudavam no momento da entrevista
81,2% não tinham planejado a gestação
60,2% associavam o abandono da escola com a gravidez
23,7% faziam uso de método contraceptivo
17 anos média de idade verificada

Fonte: Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

* Matéria alterada pelo portal OBID.
Autor: Renata Mariz
OBID Fonte: Correio Braziliense