Calçada vira cinzeiro

A lei que proíbe o cigarro em ambientes fechados trouxe várias mudanças na rotina das pessoas e dos estabelecimento comerciais. A maioria dos fumantes que trabalham em empresas sem áreas livres e freqüentadores de bares, boates e restaurantes passaram a utilizar a calçada como fumódromo. E na falta de lixeiras e recipientes para depósito das bitucas, os fumantes acabam jogando os tocos de cigarros nas ruas e calçadas, transformando estes locais em depósitos de lixo.

Alguns bares adotaram a prática de varrer calçadas e ruas para evitar o acúmulo de bitucas. O gerente do Spaguetti Bar, no Cambuí, Rogério Henrique dos Santos, conta que até coloca um cinzeiro do lado de fora do bar, a alguns metros da porta. “Muitos clientes não vêm o cinzeiro e jogam no chão mesmo”, contou. Desde que a lei antifumo entrou em vigor, no dia 7 de agosto, ele tem deslocado funcionários para varrer a calçada em frente ao bar pelo menos três vezes por noite. “Quando eles estão ocupados eu mesmo pego a vassoura e varro. Varremos aqui e a frente do prédio do lado, porque muitos clientes vão fumar ali e jogam a bituca no chão”, disse.

No Giovanetti do Largo do Rosário, no Centro, segundo o gerente José Pinheiro, sempre que há acúmulo de bitucas nas calçadas um funcionário pega a vassoura. “Aqui não temos muito esse problema porque os varredores da Prefeitura sempre passam. Mas quando vejo que tem bastante, a gente já limpa”, contou.

EDUCAÇÃO

Segundo o gestor de negócios Marco Antonio Seixas a falta de cinzeiros obriga os fumantes a jogarem as bitucas no chão. Infelizmente, não tem como. Em outros países, por exemplo, há latas de lixo com cinzeiros. Aí a rua fica limpinha, mas aqui é difícil até achar latas de lixo, quanto mais cinzeiros”, disse.

Para a estudante Janine Moura, as ruas da cidade ficaram visivelmente mais sujas. “Não tem outro jeito. Antes, nos bares tinha cinzeiro na mesa. As pessoas têm que sair para fumar do lado de fora e como não tem cinzeiro joga o cigarro na rua”, disse.

Segundo o diretor comercial Fernando Sarmento, é preciso mais conscientização por parte dos fumantes. “A gente percebe que com a lei os fumantes têm saído nas calçadas para fumar, mas, não pensando no outro, jogam o toco do cigarro no chão. Na frente dos estabelecimentos comerciais está cheio de bitucas. A gente percebe que também houve um aumento de pessoas fumando dentro dos carros, o que aumenta o risco de acidentes. Nesta semana, já voaram três tocos de cigarros acessos no pára-brisa do meu carro”, disse.

Rotina muda para os fumantes

A nova lei antifumo que entrou em vigor no último dia 7 levou muita gente a rever seus hábitos como fumantes. Tem quem leve o copo com cerveja para fora do bar para poder fumar um cigarrinho, quem dê uma paradinha na praça, quem esteja pensando em parar e até quem dê uma escapadinha do trabalho escondido para fumar.

“A gente finge que está indo fazer nada e desce escondido aqui em baixo para fumar. A empresa que trabalho não proíbe, mas a gente prefere evitar, então desce sem ninguém ver”, contou o funcionário de um centro empresarial, que pediu para não ser identificado. Quando sobe novamente para o trabalho, a tática é apelar para as balinhas, escova de dentes e o sabonete para as mãos. O consultor Anderson Ovandro contou que não tem problemas em fumar na área ao ar livre da empresa, mas que agora para por cerca de 10 minutos quando quer fumar um cigarrinho. “Antes não precisava parar”, disse. Nos bares, a saída para Ovandro é de tempos em tempos sair na calçada. “Todos agora tem as suas restrições”, disse.

Sai para fumar e some com copos

Para não perder os clientes fumantes muitos bares têm adotado técnicas para permitir a saída de quem não quem deixar o cigarro de lado. Há quem adote saídas controladas com rodízio de clientes, pulserinhas e até cartões para controle. “Dependendo do movimento, só deixamos sair de quatro em quatro para ter controle. Se tiver gente lá fora, o cliente tem que esperar. Só tivemos problema com dois clientes, um que se negou a esperar e outro que enfrentou o segurança. Nos dois casos fechamos a conta e eles foram embora”, contou o gerente do Don Donnie Bar, Ricardo Willian Ribeiro.

As saidinhas em alguns bares que deixam os clientes levarem os copos representam também um certo prejuízo. Alguns aproveitam para levar os copos ou acabam deixando eles para fora do bar. Segundo o gerente do Spaguetti Bar, Rogério Henrique dos Santos, nos últimos 20 dias triplicou a quantidade de copos perdidos. “Antes precisávamos comprar uma caixa com 24 copos por mês para repor. Desde que entrou a lei já foram três caixas”, disse.
Autor: Fabiana Buzzo
OBID Fonte: Diário do Povo