É possível superar a dependência?

Luiz Teixeira começou a atender dependentes de crack no início dos anos 2000. Recaídas constantes fazem especialistas divergirem sobre os índices de recuperação da dependência do crack

A contínua alternância entre períodos de abstinência e recaída vivida por usuários de crack lança questão sobre o poder de dependência da droga: existe recuperação para dependentes do crack?

O Governo Federal não tem dados sobre o índice de recuperação proporcionado pelo tratamento oferecido nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e em hospitais públicos. É o que reconhece o assessor técnico do Programa de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Francisco Cordeiro. “Não existe estatística específica para esta questão no Brasil”, assume.

Nem o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), que realizou os únicos levantamentos nacionais sobre uso de drogas no Brasil, em 2001 e 2005, estima o percentual de recuperação para a quem usa a “pedra”. “Com o crack, é muito mais difícil. O usuário de crack é o pior para tratamento, não só pelo descontrole, mas porque desenvolve pistas ambientais”, explica a pesquisadora do Cebrid e professora de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Solange Nappo. Essas pistas são lembranças que levam à recaída, como locais e cheiros.

A integrante da Colegiado de Saúde Mental do Município, Rane Félix, reconhece a falta de pesquisas atuais sobre a recuperação dos usuários de crack nos Caps locais. Rane estima que cerca de 50% dos pacientes conseguem “melhorar a qualidade de vida”, o que não significa abstinência total.

Com relação a outras drogas, Francisco Cordeiro e Solange Nappo lembram que há uma estimativa aceita globalmente de que 30% dos dependentes chegam à abstinência durante um período. Mas isso pode ser considerado recuperação? Não há consenso entre especialistas.

“É uma doença que não tem cura, mas abstinências provisórias. Abstinência para o resto da vida é mínima”, considera a socióloga Rita Maria Monteiro, que desenvolve dissertação de mestrado, pela Universidade Federal do Ceará (UFC), sobre instituições que tratam da dependência química. Solange concorda que a abstinência total “é quase impossível”, mas defende: “A gente não acha que recuperação seja abstinência total. Se você conseguir dar qualidade de vida à pessoa, o tratamento já pode ser considerado sucesso. Ele pode continuar a usar a droga, mas com controle”. D Comente

FORÇA ESPIRITUAL

Usuários superam dependência pela religião

Força de vontade, arrependimento e muita fé em Deus. Na comunidade Santa Cecília, no Dionísio Torres, cerca de 40 pessoas, entre eles, muitos ex-presidiários, conseguiram se libertar do crack e da vida ligada à criminalidade. Hoje, eles fazem parte da Assembleia de Deus Madureira (Campo de Paraipaba), de orientação evangélica.

O grupo iniciou antes da fundação da Igreja, por meio de uma história incrível. O segurança Francisco Eduardo, 27, passou sete anos preso por cometer vários furtos. Na cadeia, ao tentar aplicar o “golpe do cartão” por telefone, ligou para uma série de “vítimas” evangélicas. Os interlocutores do presidiário começaram a tentar convertê-lo. “Eles diziam: ´Irmão, aceite a Jesus Cristo”´, lembra. As palavras lhe tocaram e, poucos dias antes de terminar o cumprimento da pena, ele se converteu.

Além de reconquistar a liberdade, Eduardo mudou de vida. Desde os 14 anos, consumia drogas, como maconha, cocaína e crack. Era exatamente a compulsão para comprar drogas que o fazia cometer furtos. “Hoje, sou um novo homem. Tenho um emprego abençoado, paz com a minha família… Tenho dois anos de vida porque faz dois anos que aceitei Jesus”.

No início deste ano, Eduardo e mais quatro pessoas da comunidade fundaram um grupo de oração para tirar mais pessoas da criminalidade e das drogas. Um dos convertidos foi o pedreiro Francisco Sousa dos Santos, 38, que chegou a vender uma casa no valor de R$ 15 mil, para gastar, entre outras coisas, com crack, maconha, cocaína e bebida. “Eu tava sofrendo nas mãos do inimigo, levando chicotada no espinhaço, mas o irmão (Eduardo) me deu uma ajuda”.

O pastor Eduardo Silva, 29, que prega para o grupo há quatro meses e é morador da comunidade, diz que os cultos ao ar livre chegam a reunir 100 pessoas. O religioso explica que passará a convidar especialistas em dependência química para proferirem palestras, pois o trabalho deve unir “razão e fé”. Uma ação nesse sentido já acontece quando algum recém-convertido precisa passar por desintoxicação. Vários já foram encaminhados para a comunidade terapêutica Leão de Judá.

VOLTA ISRAEL

Sobriedade para reconstrução da vida

“A gente não concebe que a pessoa esteja curada, pois traz a dependência dentro de si. Ela está em sobriedade”. Este é o conceito de recuperação trabalhado no Projeto Volta Israel, da Comunidade Shalom. O coordenador técnico da Casa Renata Couras, situada em Aquiraz, Adriano Pinheiro, explica que o trabalho é ajudar os internos a reconstruir a própria vida.

A religião católica está diretamente ligada ao tratamento, com vários momentos de oração, mas adeptos de outras religiões ou ateus são respeitados. “Os que abrem o coração a Deus tem uma recuperação muito mais acelerada”, prega.

Das 30 vagas na casa, 20 são encaminhados pelo Hospital Mental de Messejana e o restante é de contribuintes pagos. Conforme Bezerra, 30% dos residentes têm “a vida transformada”, mas a recuperação pode chegar a 70%. “É difícil acompanhar. Algumas pessoas somem”.

NARCÓTICOS ANÔNIMOS

Adictos compartilham angústia

Na parede, um cartaz aconselha evitar lugares e pessoas “da ativa”, a 1ª dose e sentimentos negativos como a raiva. Outro, indica procurar ir às reuniões, buscar o Poder Superior e sentimentos positivos como fé e honestidade. Sentados em círculo, por cerca de duas horas, os Narcóticos não são tão Anônimos assim. Dão força uns ao outros e compartilham a angústia da recuperação, em depoimentos cronometrados de alguns minutos.

O NA é uma das alternativas mais procuradas por dependentes químicos que querem superar a dependência. O índice de usuários de crack é próximo de 100% em algumas salas. Frases como “Só por hoje, não vou usar”, “Estou ´limpo´ há tantos dias”, “Não leve impressão dessa reunião, volte mais vezes” são constantemente repetidas.

Há grupos de domingo a domingo, inclusive os “corujões”, até meia-noite. Depois de determinado período sem recaídas (um, dois, três, seis e nove meses; e de ano em ano), os narcóticos são premiados com chaveiros coloridos. O brinde é tão valorizado que alguns chegam a chorar ao recebê-lo. “Para algumas pessoas, isso pode ser besteira, mas para mim é muito importante”, diz, um ex-usuário de crack há dois meses.

O ex-adicto Antônio teve overdose pelo uso de múltiplas drogas, inclusive crack. Hoje, “limpo” há mais de sete meses, afirma que o NA “é tudo” na sua vida. “O segredo é você ficar ´limpo´ hoje e voltar amanhã”.

CLÍNICA PARTICULAR

Recaída só se o uso for continuado

O médico especialista em Dependência Química Luiz Teixeira, proprietário da Clínica Vila Serena, no Eusébio, acredita que a dependência química não tem cura, só controle. “Recaída é o uso continuado. Se o cara passa cinco anos limpo não quer dizer que, eventualmente, não tenha recaída”, explica.

No Vila Serena, 2/3 dos 30 residentes usavam crack. Fundada no Ceará em 1997, a clínica tem 25 anos no Brasil e segue o Modelo Minessota, focado em três pontos fundamentais: terapias grupal e comportamental e o método dos 12 passos do NA.

O público da clínica é de classe média e média alta, a maioria beneficiária de planos de saúde. “A grande maioria chega em estágio de dependência avançada”. A média de internação é de 45 dias. Após a alta, os pacientes seguem sendo acompanhados por um ano. Segundo Teixeira, a clínica alcança 60% de recuperação.

SAIBA MAIS

Pesquisa
A socióloga Rita Maria Monteiro escreve dissertação sobre o tratamento para dependência química em diferentes locais. Segundo ela, em nenhum deles, há índices de recuperação “reais”, “é tudo muito hipotético”

Clínicas
Em sua maioria, têm equipes multidisciplinares de médicos e utilizam medicamentos. O custo médio de internação chega a R$4.500,00/mês

Comunidades
A religião é o foco do tratamento nas comunidades terapêuticas. Muitas não têm equipe médica completa. Custo médio varia de um a dois salários mínimos

Hospitais
Os hospitais psiquiátricos particulares, geralmente, limitam-se ao tratamento de desintoxicação
Autor: ícaro Joathan
OBID Fonte: Diário do Nordeste