Após 1 mês, fumantes usam criatividade para conviver com a lei

Fumar embaixo do toldo do bar, não rola. Na badala, nem pensar. Dentro do restaurante? Menos ainda. Assim, o fumante tem que, ou dar uma volta para poder acender o cigarrinho, ou engolir a vontade da fumaça. Ou…”não sair mais de casa, ué!”.

“Tem muita gente boicotando a balada por causa dessa Lei, falo com conhecimento de causa. Sempre fui de ir à balada quase todo dia, agora estou indo bem menos e, quando vou, noto que ela está bem mais vazia”, disse o booker José Argenato Filho, o Tato, que encontrou outras saídas para curtir a noite sem ter que se privar do cigarro. Ele e mais sete pessoas contaram sua experiência nas primeiras semanas da Lei Antifumo ao Terra por meio da ferramenta de microblog Twitter.

“Prefiro fazer uma geral em casa, chamo a galera e a balada rola ali mesmo. Ou, quando estou mesmo a fim de ouvir um DJ que eu gosto, fumo escondido dentro banheiro mesmo e ainda saio gritando, ´segurança, fumaram aqui dentro, olha essa fumaça!”´, confessou o booker de 47 anos.

Após um mês desde a validação da Lei Antifumo que proíbe cigarros acesos em qualquer espaço fechado de uso coletivo em todo Estado, um novo encontro entre fumantes que participaram do especial foi realizado, nesta terça-feira, em um bar na região da Avenida Paulista, zona central da cidade. A maior novidade deste novo debate foi, sem dúvida, a quantidade de soluções e sugestões que os fumantes estão encontrando para amenizar o impacto da Lei.

Bares favoritos

“Depois vou mandar para vocês uma lista que fiz com os bares que têm mesa na calçada e que permitem que você coma, beba e fume ao mesmo tempo! A cada bar novo com este perfil, eu marcava no meu GPS e, aos poucos, montei um mapa de bares bons para os fumantes”, disse o organizado Caio Facchinato, consultor de informática de 24 anos, que freqüenta em média 20 diferentes bares por mês. “Tá no meu celular, depois mando para vocês”, comentou orgulhoso.

Questionado se esses bares eram apenas de alguns bairros específicos, ou se estavam espalhados por toda a cidade, Caio rebateu. “São de bairros da zona norte, mais próximo da minha casa, né? Mais distante seria impossível por conta de outra lei: a Lei Seca”, disse ele, com cara de poucos amigos. “Daqui a pouco vão dizer que só posso transar uma vez por mês! Só está faltando isso”, completou.

Cigarro amigo

Caio, que revelou no primeiro encontro, há três semanas, usar o “xaveco do isqueiro” como aproximação, disse que a tática “continua dando certo, hein?”- na hora de sair do bar para fumar, ele finge estar sem isqueiro e pede emprestado a alguma garota, iniciando um papo.

Com ou sem estratégias, o que ficou evidente é que, para todos, o cigarro é (ou era) usado por seu dono para chamar a atenção.

“A maneira como você segura, como você traga, como solta a fumaça, tudo isso compõe um pouco seu estilo. O cigarro ajuda a paquerar, sem sombra de dúvidas”, disse Tato. “Mas agora isso acabou, até para xavecar ta mais difícil. Em vez de pedir o isqueiro para outra pessoa, dentro da balada, estou tentando adaptar outras táticas”, revelou ele.

Fabrício Vertamatti, de 30 anos, analista de sistema, que também participou do debate do Twitter, concorda que o cigarro cumpria mesmo esse papel de socialização. “E não será fácil achar algo o que substitua à altura. Um copo de bebida na mão, por exemplo, não tem o mesmo efeito, porque todo mundo bebe. O cigarro é mais chamativo”, diz.

Até cigarro de madeira, para substituir o verdadeiro, ao menos na hora da pose, foi mencionado ¿ e tom de brincadeira, claro. “Mas aqueles cigarros mais curtos, que lançaram uma vez e depois tiraram do mercado, seriam muito bem-vindos. Eu compraria com certeza”, lembrou Tato. “Eles acabam mais rápido, ideal para aquela saidinha da balada que às vezes faz você perder a melhor música da noite”.

O transtorno a que os fumantes estão sendo submetidos foi outro ponto lembrado. “É um saco ficar naquela fila para fumar na rua, aquilo demora. E se, você está lá, e bem na hora toca aquela música que você adora? Vou perder a música, ou meu lugar na fila dos fumantes? Percebe que absurdo? Essas filas às vezes são maiores do que a de acerto do caixa”, reclamou o booker.

A cara feia dos não-fumantes também foi mencionada como ônus conseqüente da Lei. Tatiana Bandeira, jornalista de 30 anos, outra participante da polêmica no Twitter, reclama do preconceito que vem sofrendo. “Nossa, acender um cigarro no ponto de ônibus parece que virou crime”, disse. A jornalista, contudo, encontrou soluções criativas para outros problemas decorrentes da Lei. “Para evitar aquela quantidade de bituca no chão, na rua, tento sempre andar com uma latinha, ou coisa do gênero. Assim, guardo minhas próprias bitucas e não sujo a cidade”, disse a boa cidadã.

Palpite otimista

Tato comentou que todos seus amigos não-fumantes aplaudiram a Lei. Caio torceu no nariz quando ouviu isso e disse ser radicalmente contra. Segundo ele, o único benefício é sentido no bolso, já que ele costuma gastar R$ 50 por semana com cigarros.

No saldo, ambos disseram manter a mesma média de cigarros por dia apresentada uma semana após o início da Lei, sendo que Tato diminuiu um pouco (porque sai muito na noite) e Caio aumentou consideravelmente (porque sempre que encontra um local permitido, fuma o quanto pode de uma só vez).

Fabrício disse ter percebido uma leve diminuição. “É, eu tô fumando menos, é muito trabalhoso sair para achar um lugar em que você possa acender um cigarro. Mas devo dizer que também não foi nenhuma redução drástica”, calculou.

Mas e daqui para frente? Tato fez uma previsão otimista para os fumantes: “Num futuro que julgo estar próximo acho que vão surgir baladas para fumantes. Baladas próprias, específica para quem quer dançar e fumar. Não é possível que isso vá continuar do jeito que está”, comentou. “Se até taxista já está permitindo fumar dentro do carro, por que uma balada assim não vai existir?”.
Autor: Fabiano Rampazzo
OBID Fonte: Site TERRA