O papel da educação nas políticas restritivas

Henrique Marcelino, 30 anos, é engenheiro e fuma desde os 17 anos. Quando sai para algum barzinho com os amigos e/ou a namorada, sempre procura não incomodar aos demais com o seu cigarro. “Sou contra fumar em lugares fechados. Sempre saio para um lugar aberto”.

O engenheiro vive um dilema diante da possibilidade de uma lei restringindo a ação de fumar em qualquer ambiente coletivo. “É errado proibir 100%. Todo mundo tem direito de se divertir. Se for proibir nos lugares, é melhor proibir a venda”, argumenta ele.

Por outro lado, Marcelino reconhece que, se pensar no bem-estar da maioria da população, a lei está correta. Com a inibição do fumo, ele cogita parar de vez de fumar ou, pelo menos, diminuir a quantidade de cigarros. Mesmo assim, ele contesta: “A lei precisa ser algo que a população, aos poucos, entenda, com divulgação, e passe a aceitar”.

Para a efetivação de políticas públicas que modifiquem o comportamento da população, de acordo com Carlos Maciel, professor da pós-graduação em Serviço Social da UFPA, é preciso haver uma conjugação entre políticas de fiscalização e de educação. Ele pondera, no entanto, que existe hoje um “consenso moral e transclassista (que permeia todas as classes sociais) de que as formas repressivas são mais eficazes, eficientes e legitimadas”.

O favorecimento a políticas restritivas, de acordo com Maciel, resulta de uma geração formada em uma educação repressiva, principalmente nos ambientes escolares e familiares. “A repressão e a violência são fortes. Há uma conduta de autoritarismo. É algo que ficou na subjetividade coletiva. As pessoas acham que a proibição é a melhor forma”, ratifica.

A concretização de políticas repressivas sem a aceitação da população pode acarretar, diz Maciel, em uma inversão de valores. Um exemplo lembrado pelo pesquisador é que, em escolas nas quais não se desenvolve um sentimento comunitário, há mais chances de depredação e destruição. Diferentemente de locais que os estudantes conservam por se sentirem mais próximos e íntimos do ambiente.

Possibilidades

Como exemplo de mudanças de comportamento bem sucedidas, o professor Carlos Maciel cita a implementação do Código de Trânsito Brasileiro, aprovado em setembro de 1997 e que passou a vigorar em janeiro do ano seguinte. Por meio de campanhas educativas, difundindo o perigo de dirigir sem o cinto de segurança, houve toda uma geração preparada para usar o cinto de segurança, sem necessariamente ser punida.

A medida, porém, não conseguiu êxito apenas com ações pedagógicas. Houve também muitas – e caras – multas, para que os acostumados a não usar o acessório passassem a incorporar o hábito. “Hoje, dificilmente alguém dirige sem cinto de segurança. Tanto os mais novos como os mais antigos”, aponta.
Autor: Tiago Coutinho
OBID Fonte: O Povo