Alívio em miligramas

“Em Nova York, todo mundo precisa de Prozac para ser feliz”, era a constatação da criadora de perfumes Carolina Herrera Jr. quando criou a fragrância 212, no final dos anos 90.

O frasco é uma alusão à cápsula azul, um antidepressivo à base de fluoxetina. Hoje, os habitantes de uma cidade que nunca dorme não são os únicos que necessitam da ajuda de psicotrópicos para conter os males da alma. Excesso de trabalho, violência urbana, instabilidade financeira e perdas em geral fazem gente que “nunca ficou triste” mudar de repente.

Há quatro anos, a fotógrafa Maristela Beltrão deixava de fazer duas das coisas que mais amava no mundo: ir a festas e olhar vitrines em shoppings. “Qualquer ambiente lotado me provocava taquicardia. Algo estranho para mim, que adoro gente”, conta Maristela, que não precisa de mais das pílulas para dormir e já diminuiu muito a dose de fluoxetina. Descobriu que seu desconforto era depressão profunda acompanhada por uma síndrome do pânico. “Tudo aconteceu depois que minha mãe faleceu. Na época, minha carga de trabalho era tão absurda que nem pude vivenciar o luto”, recorda.

Levou um ano até que Maristela decidisse buscar ajuda profissional. “Nunca houve preconceito em procurar um psiquiatra. Apenas não sabia o que estava acontecendo comigo. Nunca fui melancólica ou introvertida. Achava que tudo aquilo era fase e passaria com o tempo”. Atualmente, para conseguir identificar qualquer sinal estranho mantém as sessões de psicanálise. “Os medicamentos não podem ser para sempre. Só podem ser indicados por médicos e têm prazo de validade”, aconselha.

Esse uso indiscriminado, relatado por ela, é o maior perigo dessas drogas que deveriam servir apenas para melhorar a qualidade de vida. “Mas a banalização na prescrição e a falta de informação com relação ao uso são as causas de vício e abuso”, critica a psiquiatra Thaís Póvoa, chefe do departamento de psiquiatria da Universidade Católica de Brasília. Vítimas famosas do exagero podem ser pessoas comuns ou o pop star Michael Jackson.
Autor: Editoria Diário em Revista
OBID Fonte: Diário de Pernambuco