´O uso precoce de bebidas alcoólicas é um problema de saúde pública´

Instituto ALANA – Entrevista Ronaldo Laranjeira

ESPECIAL JUVENTUDE E BEBIDAS ALCOÓLICAS
Qual é a influência da publicidade de bebidas alcoólicas no índice de jovens com problemas ligados ao alcoolismo?

Em um país como o Brasil, a indústria da bebida não apenas promove como estimula o consumo precoce de cerveja entre crianças e adolescentes. A publicidade passa uma imagem de festa, de diversão e de sexualidade associada à cerveja. E também passa uma ideia de um produto que poderia ser consumido de forma indefinida sem causar problemas. A mensagem é sempre a do “experimente, experimente, experimente”. Essa foi uma publicidade veiculada em todo o país que, ao meu ver, foi a pior do ponto de vista de saúde pública. Mas, de alguma forma, ela sintetiza as mensagens de todas as outras marcas de cerveja.

A sociedade brasileira permite que se divulgue a mensagem de que a experimentação farmacológica – que também envolve o consumo de cerveja – é algo que todo jovem deve fazer. Na minha opinião, a publicidade de cerveja, da maneira como ela é feita hoje, inviabiliza qualquer programa de prevenção ao consumo de qualquer tipo de droga. Porque você deixa que o “experimente, experimente, experimente” bombardeie a cabeça das crianças em qualquer hora do dia.

Existe diferença entre o impacto das campanhas de cerveja das de outros tipos de bebida alcoólica?

A publicidade das bebidas destiladas tem de cumprir um horário para serem veiculadas. Há uma restrição maior. Por isso, as crianças não são tão bombardeadas por elas, embora a mensagem seja muito parecida.

Como você mesmo lembrou, já existe uma regulamentação para a veiculação de publicidade de bebidas com alto teor alcoólico. Qual é a sua opinião sobre o fato de a regra não incluir a cerveja?

Um dos grandes problemas é que a cerveja é a bebida alcoólica mais consumida em todo o Brasil. Mais de 70% de todo o volume de álcool consumido no país é em forma de cerveja. Outro ponto é que a cerveja é a principal bebida que os jovens começam a consumir. Além do mais, existe toda uma estratégia de distribuição de cerveja pelo território nacional que não tem paralelo no mundo. Qualquer boteco, em qualquer lugar – seja o lugar mais afastado possível – tem cerveja. Assim, a droga que mais provoca impactos negativos entre os jovens fica de fora dessa regulamentação, o que é um absurdo.

O problema se restringe ao alcoolismo ou o consumo deste tipo de bebida pode causar outros problemas?

Todas as evidências mostram o seguinte, quanto mais precoce é o consumo, maior é o número de problemas. No Brasil, o consumo regular de bebida alcoólica é a partir dos 14 anos de idade. Isso é grave, pois sabemos que quanto mais cedo o jovem começa a beber, mais vulnerável ele fica ao consumo de outros tipos de drogas. Por isso que eu falo que essa liberação do consumo de cerveja no Brasil inviabiliza qualquer prevenção ao consumo de drogas ilícitas, como a maconha.

O significa consumo regular? É todo dia, todo fim de semana?

Significa que a pessoa consume bebida alcoólica pelo menos uma vez por semana. E esse consumo tem sido percebido em pessoas cada vez mais jovens.

Quando se percebeu essa mudança de comportamento?

Essa mudança já acontece há alguns anos, mas tínhamos poucas pesquisas a esse respeito. Fizemos uma pesquisa há cerca de um ano que nos mostrou dados de forma inequívoca. O uso precoce de bebidas alcoólicas entre adolescente é um problema de saúde pública.

E as crianças de até 12 anos de idade, de que forma elas são impactadas por esse tipo de publicidade?

As crianças são expostas desde a mais tenra idade a uma mensagem absurda. Elas estão sendo estimuladas ao consumo precoce e por meio de uma concessão pública, que é a televisão. A sociedade permite que aquilo que deveria ser um bem público seja um meio de vender cerveja. As crianças, até oito horas da noite, são expostas de forma vil. Isso é criminoso! O Estado brasileiro está compactuando com a exposição de crianças à publicidade de um produto cujo consumo é ilegal para menores de 18 anos. Isso não é um detalhe. Como é que se permite a veiculação deste tipo de produto no horário em que as crianças mais assistem à televisão, sem nenhum tipo de restrição? A gente não pode esquecer isso: a televisão é uma concessão pública.

Você percebe algum tipo de mudança na indústria com relação a essa questão?

Não vejo um esforço, não. Pelo contrário. A propaganda no Brasil é agressiva e continua atingindo crianças e adolescentes. Isso não mudou.

Você apoia uma regulamentação do Estado?

Apoio uma regulamentação da sociedade. Não podemos mais permitir que se faça publicidade para nossos filhos, nossas crianças, de produtos que são os mais danosos.

Quais são os danos que o consumo excessivo de álcool pode causar em um adolescente?

O problema mais frequente de adolescentes que começam a se intoxicar são os acidentes. Nós não estamos falando do padrão de consumo de um jovem que toma um copo de cerveja na hora do almoço com os pais. Estamos falando de um padrão de consumo que ocorre predominantemente fora de casa, em ambiente público, e na forma de intoxicação – por exemplo, tomar dez cervejas. Esse é o padrão que nos chamamos de binge – consumo intenso em curto espaço de tempo. Isso expõe os jovens a acidentes, a sexo indesejável, a comportamentos de risco, além de todos os problemas de saúde física e de se tornar dependente ao consumo de álcool e outras drogas.

O binge é típico dos adolescentes?

Bom, isso ocorre no mundo todo. No Brasil, o consumo de álcool é predominantemente feito fora de casa. Em outros países isso é diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, os jovens bebem mais dentro de casa, é outro padrão. Aqui no Brasil, tudo facilita a intoxicação. Não há controle social. A lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de idade não é seguida, nem fiscalizada. Nos Estados Unidos, isso é bem fiscalizado e a lei só permite o consumo de bebidas depois dos 21 anos.

Existe outras formas da indústria de bebidas alcoólicas chegar ao público jovem sem ser por meio da publicidade tradicional, como a televisiva?

A indústria tem uma rede de distribuição que facilita o consumo. O próprio lugar onde se consome muitas vezes estimula isso. É uma estratégia ampla e agressiva de vendas que tem o jovem como o target, um alvo muito fácil. A publicidade faz parte dessa estratégia, mas há também a rede de distribuição, os eventos – como o Skol Beats, por exemplo. A promoção da bebida alcoólica é muito forte.

Hoje, as grandes comemorações nacionais estimulam o consumo deste tipo bebida. É um traço somente cultural?

Isso é estimulado, de alguma forma, pela própria indústria do álcool. Não é apenas uma manifestação espontânea, cultural. No meu modo de ver, isso também faz parte da estratégia de vendas. E tem custo.

Qual é o custo desse cenário para a saúde pública?

Esse é um dado absolutamente importante que o Brasil não tem.

E com relação aos programas preventivos, há algo sendo feito no Brasil que tenha relevância?

Desconheço. Existe muito jogo de cena, de dizer que faz. Mas nada que tenha realmente impacto. Na Suécia, por exemplo, há um trabalho muito interessante nesse sentido. Eles fazem uma identificação precoce do problema. Então, se alguém é pego usando droga ou bebendo demais na rua ou na escola, é encaminhado imediatamente a um acompanhamento. Há sempre uma resposta da sociedade. A pessoa não é presa, ela é tratada imediatamente por uma rede que não se restringe apenas à psiquiatria. Lá há uma possibilidade de tratamento que nós nem sonhamos em ter aqui.
FONTE: UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas