Fumantes querem abandonar a dependência

A maioria dos fumantes da Universidade de Brasília (UnB) é homem, jovem e tem intenção de largar a dependência. A dissertação de mestrado realizada pela enfermeira Rossana Michelli de Pontes definiu o perfil de estudantes, professores e funcionários adeptos do cigarro na instituição. Mesmo com a proibição em fumar em locais públicos, muitos insistem em consumir cigarros em espaços parcialmente abertos do campus do Plano Piloto.

Rossana entrevistou 248 pessoas para a dissertação de mestrado em ciências da saúde — 124 se declararam fumantes. A maioria — 80,7% — afirmou querer debelar o hábito, mas 40% não têm uma meta de quando ou como parar. Sob orientação do professor de enfermagem Pedro Sadi, a pesquisadora localizou pontos frequentemente usados para fumo na UnB, como o Instituto Central de Ciências (ICC), conhecido como Minhocão, e a Reitoria. “O que eles fazem é sair da sala. Às vezes, fumam até mesmo no andar do trabalho, no espaço físico do prédio”, disse. Segundo Rossana, muitos entrevistados afirmaram fumar nos corredores do ICC por considerarem o prédio um espaço aberto. O ICC é formado por dois longos prédios, interligados por jardins e passagens. “Ele não tem teto, mas é delimitado, por isso, não evita que o não fumante tenha contato com a fumaça. Mas os entrevistados não compreendem um ambiente semiaberto como proibitivo”, explicou Rossana.

Prejuízos

Entre os fumantes ouvidos na pesquisa, 58,9% são homens, 25% têm entre 21 e 25 anos e 71% circulavam em ambientes semiabertos enquanto fumavam. “O jovem acha que ainda tem muito tempo para parar, que o prejuízo cessa assim que ele para. Se você fumou, o prejuízo sempre vai existir”, ressaltou Rossana. Ela lembra que o fumo está associado a problemas como câncer de pulmão e boca, hipertensão, diabetes, problemas vasculares, ósseos, entre outros. Os fumantes da UnB gastam tempo e dinheiro para manter o hábito: a média dos entrevistados é de R$ 64 para compra de cigarros todo mês e 20 minutos diários despendidos durante o horário de trabalho para fumar.

De acordo com a pesquisa, 88,7% dos fumantes defendem a criação de espaços adequados ao fumo. O estudante de letras Diego Henrique de Souza, 21 anos, prefere se afastar das salas de aula para fumar. Ele não gosta de incomodar os colegas não fumantes e deixa para acender o cigarro quando está no corredor do ICC. “Prefiro aqui porque é ao ar livre. Às vezes, tem muita gente fumando no CA (Centro Acadêmico) e as pessoas reclamam um pouco, mas do lado de fora pode”, disse. Diego acredita que a criação de fumódromos distantes das salas não ajudaria, já que seria difícil ficar muito longe do local das aulas.

Em 2004, a UnB chegou a criar fumódromos no campus a pedido da Vigilância Sanitária. Cinco anos depois, porém, estudantes e servidores adotaram os jardins próximos aos prédios para fumar. A estagiária Raquel Falcão, 26 anos, fuma há sete e sempre sai da sala para acender os cigarros. “Me sinto mal em fumar em áreas fechadas porque incomodo os outros e faz mal para todo mundo”, justificou. Ela acredita que não é preciso andar muito para encontrar um espaço aberto no campus. “Mas nunca jogo o cigarro na grama, só no lixo”, destacou.

Tratamento

A Secretaria de Saúde oferece tratamento gratuito para quem quer abandonar o cigarro. O Programa de Controle do Câncer e Tabagismo realiza reuniões em 36 centros de referência em todo o DF. Nos encontros, os fumantes falam sobre o hábito de fumar e as dificuldades em largar o tabaco. Um médico acompanha o grupo e dá orientações. As primeiras quatro sessões são semanais, depois os tabagistas se encontram a cada 15 dias durante dois meses. As reuniões continuam mensalmente até completar um ano. O paciente com indicação de medicamento pode retirá-lo gratuitamente — cerca de 20% das pessoas precisam de remédios para combater a dependência.

O pneumologista Celso Rodrigues, coordenador do programa, explica que a procura maior é de pessoas acima dos 30 anos, especialmente mulheres. “Cabe a nós esclarecer o que é a síndrome de abstinência, por que a pessoa fica dependente e a por que o melhor é parar”, explicou o médico. Segundo ele, cerca de 70% a 80% dos participantes do programa deixam o hábito, mas 40% têm recaídas posteriores. Rodrigues alerta para os perigos do cigarro: a cada 10 fumantes, seis morrem por alguma doença provocada pela dependência. Interessados em entrar para o grupo podem ligar para 0800 61 1997.

1 – Placas

Em 2004, a UnB criou 30 áreas exclusivas para os fumantes dentro do campus. Na época, a Vigilância Sanitária realizou vistorias na universidade para conferir se havia fumantes em locais fechados, como salas de aula, biblioteca ou restaurante. Os fumódromos da instituição foram sinalizados com placas. Esses espaços deixaram de existir e, atualmente, a UnB não tem planos de criar outros pontos para fumar.

O que diz a lei

A legislação mais recente que proíbe o fumo em ambientes públicos ou privados no DF é a Lei Distrital nº 4.307, em vigor desde fevereiro deste ano. O texto da norma adverte que não se pode usar cigarros, charutos, cachimbos ou produtos similares — derivados ou não do tabaco — em espaços coletivos. A regra inclui locais de trabalho, estudo, culto religioso, de lazer, esporte, restaurantes, bares, boates, teatros, bancos, supermercados, padarias, repartições públicas, escolas, bibliotecas, veículos de transporte coletivo, táxis etc. Donos de estabelecimentos maiores que 100 metros quadrados podem criar áreas para fumantes que garantam a exaustão do ar para o ambiente externo. O desrespeito à lei pode acabar em multa de R$ 2 mil a R$ 80 mil. Ainda no ano 2000, a Lei Distrital nº 2.611 alterou uma lei de 1996 proibindo o fumo em recintos fechados, como áreas destinadas à alimentação e espaços de circulação interna de centros comerciais e shoppings. Uma lei federal mais antiga, a nº 9.294/96, proibia o uso de qualquer produto fumígero em recintos coletivos, sejam públicos ou privados. As exceções são as áreas destinadas ao fumo (os fumódromos) devidamente isoladas e arejadas.
Autor: Elisa Tecles
OBID Fonte: Correio de Braziliense