Tratamento especializado facilita abandono do cigarro

Secura na boca, dentes e hálito mais limpos e menos odor de cigarro. Essas foram as sensações sentidas pelo funcionário público Marcos Roberto Parisotto, de 37 anos, menos de 24 horas depois de começar a reduzir o consumo de cigarros. No período em que geralmente teria consumido oito cigarros, cortou o hábito pela metade. Parisotto é fumante há 19 anos. “Eu ainda brigo com o prazer que o cigarro parece trazer, principalmente nas horas de maior estresse do dia, mas sei que não vai ser fácil. A partir de agora vou enfrentar uma luta diária”, destaca.

A luta do funcionário é deixar de vez a dependência do cigarro. Vontade de 90% dos fumantes no mundo, conforme apontam estudos da área. Dos que fazem a tentativa sem auxílio psicológico ou fisiológico, 80% voltam a fumar em menos de um ano desde a última tragada. Por isso, hoje diversos programas buscam orientar e acompanhar o fumante para conseguir de fato vencer essa batalha.

Desde 1995, o tabagismo está na Classificação Internacional das Doenças da Organização Mundial de Saúde (OMS), o que significa que a dependência do cigarro é uma doença, com período de incubação, quadro clínico, fisiopatologia, tratamento e prognóstico específicos. “Desde 2003 foi instituído uma convenção para o controle do tabaco, em que 194 países, inclusive o Brasil, prometeram adotar medidas para diminuir o consumo de cigarros”, destaca a ortodontista Andréa Carraro de Oliveira Badin. Doutora em Educação para Cessação do Tabagismo, ela é uma das coordenadoras do Programa Viva Livre. “O tratamento deve ser pela associação do tratamento medicamentoso e comportamental.”

Segundo Andréa, o tabagista passa pela dependência fisiológica e psicológica e pelo automatismo (atos do cotidiano em que o cigarro estava sempre presente). “O importante é que a pessoa dê o primeiro passo, que é buscar ajuda para deixar o cigarro. Sozinho é muito mais difícil”, diz.

“Depois o fumante deve conhecer a doença para identificar nele as manifestações da dependência e do automatismo”, explica. “Com acompanhamento multidisciplinar, que envolve nutrição e exercícios físicos, além de medicação prescrita por um especialista, fumar ou não passa a ser uma escolha consciente.”

A ortodontista aponta a nicotina como a principal vilã na manutenção do vício, devido a atuação psicoativa, que gera nos abstinentes fortes reações fisiológicas, como descontrole emocional e intelectual. “A genética influencia na propensão a dependência, mas o estímulo social também. Numa família de pais fumantes, existe 60% de chance dos filhos também fumarem”, afirma.

Programa da UEL trata sem prescrever medicamento

Com o intuito de diminuir o sofrimento de fumantes com uma alternativa de tratamento gratuito e não medicamentosa, iniciou neste mês um projeto coordenado pelas professoras do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Maria Luiza Marinho Casanova e Josy Moriyama. Nele 135 jovens, adultos e idosos se inscreveram com um objetivo em comum: livrar-se do cigarro em até seis meses.

O tratamento é inspirado em ações semelhantes já desenvolvidas na Espanha, que focalizam a dependência química e emocional do tabagista. No primeiro caso, os tabagistas deixam de fumar gradativamente cigarros com o grau mais alto de nicotina (que chega até a 1g) até alcançarem o de menor grau (0,1g). Ao atingir o limite mínimo de ingestão de cigarros com menos nicotina, tem início a redução do número de cigarros fumados no dia, para que, ao final do tratamento, a síndrome de abstinência seja reduzida.

Encontros mensais com outros e individuais com as coordenadoras ajudam a desenvolver nos tabagistas um prognóstico de como evitar e descaracterizar rotinas antes acompanhadas pelo cigarro. “Escutamos pacientes dizerem que o cigarro é uma companhia”, aponta Josy. “Por isso que em um dos encontros os pacientes podem trazer os familiares ou amigos, para junto discutirmos o problema e oferecermos ferramentas de resistência e convivência num ambiente em que possam existir outros fumantes.”

“Hoje tudo tem mais sabor”

Foi em uma brincadeira com amigas da escola que Sueli Souza tragou o primeiro cigarro. Mas apenas 26 anos depois a estudante conseguiu deixar o cigarro. “Eu gosto muito de correr, mas não tinha fôlego para a atividade e nem força suficiente para deixar o hábito. Eu queria uma melhor qualidade de vida, mas não conseguia por causa do cigarro”, afirma Sueli.

Há cinco anos ela largou o cigarro. “A melhor coisa que eu fiz foi parar de fumar. Minha pele, cabelo, dentes, a minha auto-estima, tudo ficou em alta. Sem contar que agora nem meus móveis e roupas tem aquele cheiro de fumaça. Só de lembrar eu fico com nojo.”

Sueli já tinha tentado abandonar o tabagismo mais de uma vez sem ajuda especializada. Em todas sofreu recaídas. Em uma chegou a engordar porque trocou o hábito do cigarro por balas. Até que se inscreveu no Programa Viva Livre. “Como ali a gente trabalha em grupo, um ajuda o outro. Você quer parar de fumar e quer que os outros saibam que você conseguiu ficar sem o cigarro”, conta. “Hoje tudo tem mais sabor, seja o cafezinho ou uma cervejinha. Sem contar que agora sim meu marido consegue sentir meu perfume.”

“Meu cheiro não é mais de cigarro”

“Comecei a fumar quando o hábito era bem-visto na sociedade. Fumar era um charme”, lembra o representante comercial José Ronchi, que foi fumante por 41 anos. “Mas, na realidade, fumar é um bom hábito apenas para os fabricantes de cigarro.”

Livre do tabagismo desde às 17 horas do dia 18 de maio de 2005, como faz questão de frisar, Ronchi participou do programa Viva Livre. Para o exercício diário de abandonar o mal ele encontrou apoio na crença religiosa e até mesmo como forma de acabar com o forte odor que exalava do corpo.

“Eu tinha que trocar de roupa e escovar os dentes toda vez que ia visitar um cliente. E ainda assim me sentia com o cheiro do cigarro. Era horrível”, relembra Ronchi. “Desde que me conscientizei que precisava deixar o cigarro para viver mais e melhor, tudo mudou. Meu paladar ficou mais apurado, meu cheiro não é mais de cigarro e inclusive minha vida sexual melhorou”, relata. “A única coisa ruim é que eu fiquei mais chato porque minha esposa, que é fumante, só pode fumar fora de casa. Não posso nem sentir o cheiro mais.”

Hábito inicia cada vez mais cedo

Paralelamente ao tratamento na Clínica de Psicologia da UEL, as docentes Maria Luiza e Josy Moriyama também coordenam uma atividade de prevenção no Colégio de Aplicação, com atividades que visam identificar e evitar o tabagismo. “Existem pesquisas que mostram que os tabagistas têm começado a fumar cada vez mais jovens, por volta dos 10, 11 anos, mesmo com o fim da publicidade sobre o produto”, aponta Maria Luiza. “Quem fuma desde muito cedo acaba fumando por mais tempo”, observa. “Já se sabe também que o tabaco é uma porta de entrada para outras drogas ilícitas e até mesmo o álcool.”

Serviço – O Projeto Viva Livre presta atendimento individualizado e com grupos em empresas. Mais informações pelo telefone 3345-1921. Já na Clínica de Psicologia da UEL só serão aceitos novos pacientes para o tratamento no ano que vem. Mas empresas interessadas em desenvolver o programa para seus funcionários podem entrar em contato com as professores pelo telefone 3371-4227.

Ex-fumante sente os benefícios de forma gradativa

Se dar a primeira tragada leva poucos segundos, estudos na área do tabagismo mostram que no corpo os benefícios de quem deixa o cigarro são sentidos gradativamente:

20 minutos: a pressão arterial e os batimentos cardíacos voltam ao normal.

Oito horas: níveis de monóxido de carbono retornam ao normal.

Três dias: relaxamento dos brônquios e aumento da capacidade respiratória.

Em 2 a 12 semanas: melhora na circulação.

Em 1 a 9 meses: redução de tosse, infecções e capacidade respiratória ainda melhor.

Em 1 ano: redução do risco de infarto em 50%.

Em 15 a 20 anos: o risco de câncer fica próximo ao de uma pessoa que nunca fumou.
Autor: Editoria Saúde
OBID Fonte: Jornal de Londrina