O uso e abuso do álcool: quais as influências da profissão e das condições de trabalho?

Há uma crescente preocupação sobre o uso e o abuso do álcool pela população de trabalhadores, pois muitas vezes o consumo de álcool ocasiona não somente prejuízos pessoais e familiares, mas também prejuízos no ambiente profissional. Por exemplo, têm sido associados ao consumo de álcool e trabalho: diminuição na produtividade, aumento de absenteísmo (falta ao trabalho), maior probabilidade de acidentes de trabalho, entre outros. De fato, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) sugeriu que 20% a 25% dos acidentes de trabalho no mundo envolvem pessoas estavam sob o efeito do álcool ou de outras drogas. Além disso, acredita-se que, mesmo em pequenas quantidades, o álcool pode causar prejuízos à performance, qualidade e segurança no trabalho.

Há estudos que mostram algumas situações relacionadas a uma maior incidência no consumo indevido do álcool no ambiente de trabalho; como por exemplo, a posição hierárquica dentro da empresa e as próprias condições do trabalho (escala irregular, salário, insegurança no trabalho, desgaste intenso, estresse, demandas física e psicológica). Outros fatores, de ordem individual e socioeconômica, também podem influenciar o consumo de álcool associado ao trabalho. Para avaliar esses possíveis fatores, pesquisadores canadenses realizaram um estudo com 10.155 trabalhadores. As contribuições da profissão e das condições de trabalho no consumo de álcool (classificado em três categorias: abstinência, padrão de baixo risco e padrão de alto risco) foram ajustadas para situação familiar, vida social fora do ambiente de trabalho e características individuais (saúde, hábitos, estilo de vida).

Este estudo apontou três principais hipóteses sobre as possíveis relações entre álcool, profissão e condições de trabalho: a) A profissão e as condições de trabalho contribuiriam independentemente para o uso e abuso do álcool; b) A profissão regularia os efeitos das condições de trabalho no consumo de álcool; c) As características individuais, situação familiar e vida social fora do ambiente de trabalho regulariam os efeitos da profissão e das condições de trabalho no consumo de álcool. Em geral, o cargo profissional ocupado foi sugerido como um importante fator preditor para o uso e abuso do álcool, muito mais influente do que as condições de trabalho.

Para alguns trabalhadores, o álcool é utilizado como um mecanismo para aliviar a tensão gerada no ambiente de trabalho, mas somente quando em pequenas quantidades e/ou baixa freqüência foram consideradas pelos autores como “saudáveis”, fato também mostrado por outros estudos. No entanto, para outros trabalhadores, com cargos profissionais semelhantes, o estresse promovido no trabalho seria tão grande que levaria a um consumo de álcool crescente, mais associado a prejuízos à saúde.

Os autores verificaram que executivos, diretores e administradores (“upper managers”) formaram um grupo com padrão de consumo de alto risco, com uma taxa de beber de alto risco 139% maior do que abstêmios. Além disso, fatores classificados como “perturbações graves” no ambiente de trabalho, que incluíam violência física, intimidação, repreensão, e assédio sexual, estiveram mais associados aos padrões de baixo e alto risco conforme observado em outras pesquisas.

Fatores não relacionados ao trabalho (estilo de vida e outras características individuais) mostraram-se mais importantes do que as influências da profissão e das condições de trabalho no consumo de álcool. Estudos sobre os níveis de estresse relacionados a fatores individuais (características pessoais, situação familiar e vida social) também seriam importantes para entender melhor as variações individuais que regulam o consumo de álcool. Neste estudo não foi detectado efeito significativo das condições de trabalho no uso do álcool – exceto pelas “perturbações graves” – mas sim por um conjunto de fatores, principalmente relacionados a características individuais, e possivelmente regulados pela posição (cargo) profissional. Assim, os resultados dessa pesquisa sustentam a primeira e terceira hipóteses levantadas,ou seja, que o uso do álcool seria influenciado pela profissão exercida e, decorrentes do estresse causado por características individuais, como personalidade, situações da vida diária e outros fatores sociais, como estado civil, situação familiar e renda.

Título: Alcohol use and misuse: What are the contributions of occupation and work organization conditions?
Autor: Alain Marchand
Fonte: BMC Public Health
IF: 2,03
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool