Álcool na infância: 37% dos jovens bebe antes dos 13 anos

Você sabe se seu filho já consumiu bebida alcoólica? Uma pergunta realizada por um portal de educação (www.educacional.com.br) constatou que 66,9% dos estudantes, de 13 a 17 anos de idade, já tomaram seus golinhos. Mas o dado é ainda mais alarmante: para 37% deles, o primeiro contato com o álcool se deu quando ainda eram crianças: antes dos 13 anos.

As informações foram coletadas neste ano. Ao todo, 11,8 mil adolescentes de 96 escolas particulares (incluindo instituições do Estado) participaram da pesquisa nacional, organizada pelo psiquiatra Jairo Bouer. Entre os que beberam, 80% provou pelo menos uma dose antes de completar 15 anos, a maioria ainda no ensino fundamental.

A boa notícia é que sete entre dez adolescentes não bebem com regularidade. Mas entre os que tornaram o consumo um hábito, 83% afirmaram ter ingerido alguma bebida nos últimos 12 meses, e 48,6% nos últimos 30 dias.

“Os jovens estão, cada vez mais cedo, expostos a experimentações. Eles são mais informados e têm mais acesso a tudo”, avalia o psicólogo e professor da Univix Arion Carlos Ribeiro.

Ao alcance das mãos

Diante de tanta oferta, fica difícil dizer não, como mostra a pesquisa: entre os que assumem beber, 90% disseram que é muito fácil conseguir as bebidas. Para mais da metade deles, o principal motivo para experimentar o álcool pela primeira vez foi a curiosidade.

“Essa é a idade em que se quer experimentar. E o fator principal para que isso aconteça não é o social, mas a curiosidade. Cabe à família transferir essa vontade para outros fatores de interesse ao jovem”, defende a psiquiatra Ana Cecília Marques, especialista em dependência química e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e de outras Drogas (Abead).

Dentro de casa

Para os pais, vale ainda outro alerta: embora a maioria associe o risco de contato com o álcool à rua, é em casa que meninas e meninos enchem o copo. Mais de 60% dos entrevistados disseram que consumiram em casa mesmo – na deles, na de parentes ou de amigos, acompanhados de pessoas conhecidas. A bebida, em 80% dos casos, é considerada uma maneira de se divertir, comemorar ou confraternizar.

Frederico*, 15 anos

Acho que experimentei cerveja, pela primeira vez, quando tinha 7 ou 8 anos. Era curiosidade. Via alguém da família bebendo, ia escondido e provava um pouco. Coisa de moleque que pega o resto da latinha e vira. Só por curiosidade. Hoje eu bebo toda semana, no bar mesmo ou na casa de um amigo. Meus pais sabem que eu bebo, mas não gostam. Gostaria de ter a chance de beber com meu pai, pelo menos. Acho que seria melhor do que com os amigos.”

Flávia*, 15 anos

Moro com minha mãe. Ela e meu pai sabem que eu bebo. Provei, pela primeira vez, quando tinha 12 anos. Sempre saí com amigos mais velhos e eles gostam de beber, muito. Eu já exagerei, tomei alguns porres. Já tive até que tomar glicose. Eu e meus amigos bebemos todo fim de semana: sempre tem alguma festa, ou a gente vai para um bar. Gosto mais de vodka e de cerveja. Mas, agora, reduzi a quantidade. Saio com as mesmas pessoas, mas comecei a beber menos.”

João*, 16 anos

A primeira vez que bebi ainda era criança. Provando um gole do copo do pai ou de outra pessoa da família. Mas comecei a beber mais quando tinha uns 14 anos, com os amigos. Teve um período que a gente resolvia beber toda semana. Qualquer coisa era motivo para beber. Mas agora acho que não faz muito sentido. Tem três meses que eu não bebo mais, perdeu a graça. Na minha festa de 16 anos eu não quis que tivesse bebida para não acontecer nada errado.”

Fernanda*, 17 anos

Meu pai não bebe nada, nunca bebeu na vida. Minha mãe gosta de vinho, mas raramente bebe. Eu fui começar a beber com 14 anos, quando comecei a sair com as amigas, principalmente nas micaretas. Acredito que meus pais não sabem que eu bebo. Uma vez fui carregada por amigas até o carro, quando meu pai foi buscar a gente numa festa. Mas prefiro dormir na casa das amigas, quando tem alguma festa, para que meus pais não saibam de nada.”

* Os nomes dos entrevistados são fictícios, para preservar os adolescentes e os pais deles

Jovens X bebida

Participaram da pesquisa 11.846 estudantes de 13 a 17 anos, de 96 escolas privadas do Brasil, incluindo o Espírito Santo, associadas ao portal www.educacional.com.br. Confira os resultados:

Já bebeu alguma vez?
66,89% – Sim
33,11% -ão

Com que idade bebeu pela 1ª vez?
Menos de 13 anos – 37,13%
13 anos – 27,26%
14 anos – 22,43%
15 anos – 10,25%
16 anos – 2,23%
Mais de 16 anos – 0,71%

Onde bebeu pela 1ª vez?
Em casa – 28,58%
Na casa de alguém – 15,13%
Na casa de amigos – 19,71%
Na rua – 7,19%
Em balada – 29,38%

Com quem estava na 1ª vez?
Sozinho – 2,66%
Com os pais – 19,37%
Com familiares – 23,21%
Com amigos – 52,86%
Com o(a) namorado(a) – 1,07%
Com desconhecidos – 0,82%

Você bebeu nos últimos 12 meses?
83,25 – Sim
16,75% -ão

Bebeu nos últimos 30 dias?
48,65% – Sim
51,35% -ão

Com que frequência você bebe?
Não bebo – 51,3%
1 a 2 vezes por mês – 33,73%
1 a 2 vezes por semana – 12,39%
Quase todos os dias – 1,2%
Todos os dias – 1,38%

Você acha difícil conseguir bebida?
Não vou atrás – 45,9%
É muito fácil – 44,4%
Tenho que planejar – 5,64%
Muito difícil – 4,06%

Quanto você bebe?
1 dose – 50,69%
2 a 3 doses – 25,18%
4 a 5 doses – 10,26%
Mais de 5 doses – 13,87%

Você já tomou um porre?
Sim – 30,41%
Não – 69,59%

Qual dos motivos é o que mais faz você beber?
Divertir-se, comemorar, confraternizar – 80,89%
Fazer parte de um grupo – 2,07%
Impressionar os outros, parecer mais maduro – 1,74%
Quebrar regras, barreira – 4,27%
Relaxar, esquecer os problemas – 11,03%

Você considera o álcool uma droga?
Sim – 65,54%
Não – 34,46%

O jovem de hoje bebe muito?
Sim – 94,31%
Não – 5,69%

Você já fumou cigarro?
Sim – 19,26%
Não – 80,74%

Já usou maconha?
Sim – 7,67%
Não – 92,33%

Você já usou outras drogas?
Sim – 6,07%
Não – 93,93%

Já fez sexo?
Sim – 19,89%
Não – 80,11%

Você tem mais vontade de fazer sexo depois que bebe?
Não bebo – 19,72%
Sim – 42,41%
Não – 37,87%

No último ano, você tentou reduzir ou parar o consumo de bebida?
Sim – 27,07%
Não – 72,93%
Autor: Maurílio Mendonça
OBID Fonte: A Gazeta