Jovens usam a fé para enfrentar o crack nas ruas

Aos 17 anos, você pensava em sair à noite para ajudar desconhecidos? Conversar com moradores de rua, usuários de drogas e dependentes do crack? Coragem ou loucura, as duas palavras já foram usadas para descrever o trabalho dos Valentes Noturnos: um grupo de pouco mais de 20 pessoas, com idade entre 18 e 25 anos, que enfrenta o desconhecido, duas vezes ao mês, há quase quatro anos.

Eles fazem parte de diferentes igrejas evangélicas, mas a religião não importa. A decisão veio com a insatisfação de ficarem protegidos nos templos, enquanto muitos sofriam nas ruas. Então, resolveram assumir um trabalho de evangelismo underground. Como eles mesmos explicam é a palavra de Deus levada ao submundo, aos excluídos da sociedade.

Com um pouco de medo, e muita coragem, o grupo ganha forma e força depois das 22 horas, no Centro de Vitória, ao lado de uma das regiões com o maior índice de população de rua da Capital. Hoje, a cidade tem 167 pessoas morando na rua: 127 são homens, e desses 82 têm de 18 a 45 anos. O trabalho é feito às quintas-feiras, de 15 em 15 dias. Saem a pé, munidos de fé, panfletos e um violão, com o objetivo de convencer quem encontram na vida noturna a abandonar o risco social.

Todos se identificam apenas com o primeiro nome; são amigos, e o sobrenome dentro do grupo é desnecessário. A GAZETA acompanhou uma ação dos jovens valentes, realizada entre a noite e a madrugada dos últimos dias 1º e 2. Em mais de duas horas, os 14 jovens que atuaram no dia assistiram com fé mais de dez moradores de rua, boa parte vítima do alcoolismo e do uso de outras drogas.

“Entre os que encontramos, mais de 90% são usuários de crack”, conta Gustavo, um dos primeiros a idealizar o grupo, ao lado de Isack e Charles. “Nós três tivemos o desejo de sair das igrejas e dos templos e começar um trabalho com os esquecidos. Queríamos ajudar pessoas”, conta o jovem de 21 anos.

Recuperação

Ele acredita que cerca de 20 pessoas já saíram das ruas com a ajuda do grupo. “Às vezes, tem quem nos pare no meio da rua, durante o dia, para agradecer. É uma surpresa reencontrar a pessoa reconstruída, sem estar suja, deteriorada. Esse reconhecimento nos dá energia para seguir com os trabalhos”, frisa o valente Gustavo.

Mas andar pelo Centro de Vitória, para Gustavo, tem um olhar diferente aos demais. Ele vive em um dos prédios da região; cresceu ali. Em uma das noites, encontrou Edson, um amigo de infância. Na madrugada do último dia 2, ele reapareceu.

Gustavo foi mais uma vez tentar falar com ele: “Eu jogava bola com o Edson. Nós nos conhecemos desde criança. A primeira vez que me viu na rua, com os Valentes Noturnos, ficou sem graça. Ele sempre está pedindo dinheiro para comprar mais crack. São três anos de conversas e orações e, até agora, nada”, comenta o jovem, em um momento de frustração.

Edson parece não se preocupar com o que ouve, assim como outros noiados (noia é o apelido dado ao usuário de crack que está em abstinência, à procura de mais droga). Ele mexe a cabeça o tempo inteiro, não consegue fixar o olhar. Às vezes procura, no chão ou na roupa, uma pedra imaginária de crack.

Fuga

É difícil ver os usuários parados. Na Praça da Vila Rubim, inaugurada no ano passado pela prefeitura, um grupo de três meninas foge do evangelismo underground. “Quando estão usando a droga ou sob o efeito dela, elas não querem conversar. Evitam a gente”, explica Gustavo. Cada um segue um rumo.

Entre eles é difícil não prestar atenção em um dos jovens que vivem ali, visto pelos demais como um líder, e requisitado quase sempre. Vinte minutos depois, uma mulher, aparentando ter entre 20 e 25 anos, chega perguntando por ele: “Alguém viu o Marquinho? Eu preciso dele”, gritava, em desespero. Mas sem resposta. Assim como surgiu, ela desapareceu, enquanto os valentes continuavam o trabalho.

Evangelismo

Valentes Noturnos: Trabalho realizado por 20 a 25 jovens que levam o evangelho a moradores de rua e a usuários de drogas. O objetivo é retirá-los do submundo. O grupo vende camisas e adesivos e aceita doações
E-mail: valentesnoturnos@gmail.com
Site: www.valentesnoturnos.com

Um endereço a quem pede ajuda

Logo na primeira abordagem, um conhecido: Domingos Saraiva Gomes, um senhor que sofre de dependência alcoólica e não se lembra mais de quantas vezes morou na rua. Desde que voltou – faz 20 dias -, ele dorme no chão, embaixo das marquises dos galpões do Porto de Vitória.

Quando os Valentes Noturnos começaram, em 2005, Gustavo, Charles e Isack encontraram Domingos e outros homens nas mesmas condições em que ele estava dessa última vez.

Há mais de três anos, a solução foi encaminhar Domingos e os colegas a uma casa de recuperação, na Serra. “Levamos os integrantes do grupo de manhã. À tarde, um integrante da casa me ligou para falar que eles foram embora. Não quiseram tomar banho”, conta Gustavo.

A dificuldade em querer mudar, de seguir regras, dificulta convencê-los a sair da rua. Agora, o grupo prefere não levar quem é abordado e tem interesse em ser recuperado logo no primeiro contato. “Damos um endereço de uma igreja. Assim, a mudança começa a partir do interesse dele”, explica Isack.

Foi o que fizeram com Domingos. Ele disse que estava em Vila Valério, trabalhando com plantio de café. “Discuti com o patrão e voltei. Arrumo emprego, tento sair dessa vida, mas é difícil. O álcool me derruba”, diz. E faz um apelo: “Ninguém merece viver como eu. Quero minha vida de volta. Quero ajuda.”

No começo, apenas 3 valentes na noite

Começar os trabalhos dos Valentes Noturnos não foi fácil. A primeira aventura envolveu apenas os três responsáveis: Isack, Gustavo e Charles, em 22 de novembro de 2005. Entre o sonho de uma ação mais ativa e presente para os excluídos e a realização dos trabalhos, muitas aventuras e aprendizados. Hoje, o grupo conta com cerca de 20 integrantes.

Nos primeiros passos, levavam lanches para dar aos que encontravam. Mas perceberam que a procura pela fé era disfarçada pela fome. “A intenção não é dar alimento, mas levar a palavra do Senhor e convencê-los a largar o hábito”, diz Isack.

Entre as lembranças, 15 adultos saindo de um buraco feito em um dos prédios abandonados próximo à rodoviária. “Fiquei assustado nesse dia. Foi a primeira vez que o medo alarmou. Mas eles nos respeitaram, não fizeram nada. Queriam apenas um lanche”, conta Gustavo.

Outro momento inesquecível, para Isack, foi quando eles subiram a Ilha do Príncipe, um dos bairros dominados por bocas de fumo. “Quando chegamos a um dos becos, fomos surpreendidos por um jovem que acredito ser um dos traficantes. Ele nos recebeu, abraçou e pediu para que fosse feita a oração. Um morador local reclamou do barulho, e o traficante logo nos defendeu. Aquilo foi um alívio para a continuação dos trabalhos, até hoje”, lembra.

Análise

“Um exemplo de vida”
Maurílio Mendonça , 27 anos, repórter

A surpresa de encarar uma noite com os jovens e valentes evangélicos ainda não passou. A coragem estampada na fé que todos carregam no peito e na voz é de surpreender. Sem falar da energia que se espalha pelas ruas do Centro. Sempre fiquei preocupado quando tenho que andar à noite em lugares ermos. Mesmo de dia, fico com um pé atrás. Mas como temer ao lado de pessoas ainda mais novas que eu? Ao ver o jovem Lucas, de 14 anos, um dos integrantes do grupo e carinhosamente chamado pelos demais de Luquinha, fiquei emocionado. Confesso que enxergar um garoto que preferiu trocar o aconchego de casa, a companhia dos pais, um filme com os amigos, uma partida de futebol ou um papo na internet por mais uma noite de ajuda ao próximo é cativante. Um exemplo de vida, ou melhor, de atitude de vida. Aos 14, Lucas já tem histórias para contar. Já sabe o que é passar fome, frio, não ter onde dormir, não saber o que é viver. Ele, mais que qualquer amigo da mesma idade, tem nítida noção de que a dependência química é capaz de destruir sonhos e vidas. Uma pena serem apenas 20 valentes noturnos, apesar de o trabalho deles equivaler ao de 100.
Autor: Maurílio Mendonça
OBID Fonte: A Gazeta