Entrevista com Nady El-Guebaly – Dependência Química

Professor da Divisão de Dependência Química da Universidade de Calgary, Canadá, Nady El-Guebaly é diretor-fundador do Centro de Adição (Addiction Center) da instituição. Ex-Presidente da Associação Psiquiátrica Canadense, o especialista é presidente-fundador da Sociedade Internacional de Medicina de Adição (International Society of Addiction Medicine – ISAM). Suas principais áreas de interesses em pesquisa são: “Comorbidades entre Dependência Química e outros Transtornos Mentais em adultos e adolescentes”; “Avaliação da educação continuada em Dependência Química com médicos de família” e “Pesquisa de resultados no tratamento do Uso de Drogas e do Jogo Patológico”. O psiquiatra é o convidado internacional do XX Congresso da Abead, que acontece em Bento Gonçalves/RS. Confira a entrevista que ele concedeu ao Boletim da Abead:

Como a dependência de drogas pode contribuir para o surgimento de doenças mentais e como as doenças mentais podem contribuir para o desenvolvimento de dependência?
As hipóteses mais populares para explicar essas relações são, em primeiro lugar, a coincidência de vulnerabilidade ou fatores de risco – tanto a dependência quanto os transtornos mentais são doenças do cérebro que afetam neurotransmissores parecidos. Apesar de não ter sido encontrado algum gene de riso em comum, uma personalidade anti-social pode elevar tanto para os riscos para transtornos mentais quanto para abuso de substâncias.

A segunda hipótese mais aceita é a auto-medicação. Os transtornos mentais podem levar os pacientes a escolher substâncias para aliviar seus sintomas. A evidência para escolha de determinada droga para sintomas específicos não é forte, mas o uso de uma série de substâncias para aliviar efeitos indesejados é comum. Por outro lado, o uso de drogas pode levar a uma variedade de transtornos mentais em indivíduos com predisposição.

Como a economia e a sociedade podem influenciar o comportamento das pessoas quando falamos sobre dependência?
Recentemente, eu fiz uma revisão científica sobre isso. Fatores socioculturais têm um papel importante na modulação do uso de substâncias através de grupos pequenos, como a unidade familiar e o local de trabalho ou do ambiente social mais amplo, como pobreza, publicidade ou influências culturais.

O risco e os efeitos preventivos desses fatores não devem ser vistos de forma isolada, mas interdependente.

Fatores socioculturais ganham relevância particular nas fases iniciais da experimentação de drogas, enquanto influências genéticas e neurofisiológicas se tornam mais relevantes quando o uso de drogas progride para dependência. Fatores genéticos influenciam a probabilidade de risco ambiental e um ambiente adverso aumenta o risco genético.

Qual sua opinião sobre a liberação da maconha?
A dicotomia entre drogas legais e ilegais tem origem histórica e está fora de moda. A mortalidade por drogas legais (álcool e tabaco) é muito maior que por drogas ilegais. Eu não apoio a legalização de uma terceira droga, como a maconha, mas apoiaria um foco na criminalização de determinadas atitudes perigosas (como o tráfico), mais do que certas drogas. Por outro lado, não há benefício em fichar criminalmente um jovem simplesmente por posse da droga.

Sobre o quê o senhor pretende falar no XX Congresso da Abead?
Eu vou apresentar uma revisão sobre as principais tentativas de avaliar os resultados de tratamento para transtornos por uso de substâncias. Também vou apresentar uma síntese das leis e determinações de saúde nas atuais políticas ocidentais sobre maconha.

Como o senhor analisa as pesquisas feitas no Brasil?
Eu estou muito impressionado com a dedicação e o potencial que veja em uma nova geração de pesquisadores, bem orientados por uma série de profissionais mais antigos no Brasil. Políticas como as desenvolvidas no estado de São Paulo, dedicando uma porcentagem da receita para desenvolvimento e pesquisa, têm fortes implicações para melhorar a competitividade futura.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)