Fissura leva dependentes a fazer tudo pela próxima dose

Diferente das outras substâncias, o crack causa um tipo de “fissura” que faz o usuário continuar fumando até que se acabem a droga e o dinheiro ou até a exaustão.

“Um usuário de maconha pode comprar uma quantidade, guardar e usar por até um mês. Já quem usa crack vai consumir tudo o que comprou imediatamente, sem conseguir parar”, disse a pesquisadora Tharcila Chaves, que desenvolveu uma tese de mestrado sobre o tema no Departamento de Psicobiologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Segundo a pesquisa, o crack começa a fazer efeito no cérebro do usuário oito segundos após ele começar a inalar a fumaça do cachimbo. A sensação de prazer dura aproximadamente cinco minutos. Em seguida, predomina uma sensação de paranoia de perseguição e compulsão para utilizar outra dose.

A fissura também é responsável por um rebaixamento de valores morais que leva o usuário a cometer crimes e a se prostituir para continuar usando o crack.

“A pessoa vai fazer um esforço muito grande para obter a próxima dose. Ela pode roubar a família, carregar um armário nas costas por várias quadras para vender. Uma mulher que se prostitui e cobra R$ 50 quando está lúcida vai cobrar R$ 5 só para poder comprar mais uma pedra.”

Cocaína

O crack é um subproduto da cocaína, mas o que torna seu efeito mais forte é o fato de poder ser fumado –e não aspirado–, segundo o pesquisador Ronaldo Laranjeira, também da Unifesp.

“A superfície de absorção do nariz é restrita. Depois de uma ou duas cheiradas, a pessoa tem vasoconstrição e a superfície diminui ainda mais. Quando você fuma, toda a superfície pulmonar, que é do tamanho de uma quadra de tênis, absorve a cocaína.”

A sensação de que o efeito do crack passa mais rápido do que o da cocaína também é enganosa. “O crack tem um pico de ação mais rápido. Após minutos, a pessoa pensa que o efeito passou, mas ele está lá, menor”, disse.
Autor: Luis Kawaguti
OBID Fonte: Agora São Paulo