Professor usa remédio para suportar a rotina

A constante indisciplina, o clima de agressividade e os surtos de violência em colégios gaúchos comprometem a saúde mental dos professores. O magistério sente no espírito os efeitos da falta de limites nas escolas

Como se fossem veteranos de uma guerra travada entre paredes, professores gaúchos estão sofrendo distúrbios psicológicos e recorrendo a remédios de tarja preta para suportar a rotina de sala de aula.

A crescente hostilidade, que resulta em agressões físicas, insultos e pressões psicológicas, contribui para o surgimento de uma geração de educadores dependentes de drogas estimulantes ou destinadas a combater sintomas como ansiedade, depressão, insônia e crises de pânico.

Na rede particular, onde o tipo de violência mais frequente é o chamado assédio moral (ofensa ou humilhação), fármacos poderosos são utilizados como antídoto à rotina de xingamentos e ameaças imposta por alunos, chefes e colegas.

Uma pesquisa feita este ano a pedido da Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino Privado revela que 22% dos 1.680 profissionais gaúchos entrevistados tomam algum tipo de tranquilizante para lecionar – índice que corresponde, segundo estudos psiquiátricos, a aproximadamente o dobro do consumido pela população em geral. Outros 20% usam antidepressivo, e 17% consomem estimulantes.
O uso de medicamentos tarja preta sujeita os pacientes a reações adversas como sonolência, desorientação e dependência química. Utilizados incorretamente, podem até levar à morte. Mesmo assim, são empregados como último recurso por profissionais à beira do desespero.

Estresse acabou com casamento

Uma das adeptas do coquetel químico é uma professora de 37 anos da rede particular da região de Passo Fundo, no norte do Estado. Às vésperas do Natal passado, ela chegou em casa após um dia exaustivo. Uma aluna não entendeu uma brincadeira da educadora, que utilizou uma palavra em outra língua para chamar sua atenção, e acreditou que o termo tinha conotação sexual depreciativa.

A falta de diálogo transformou o mal-entendido em conflito. A adolescente reclamou com os pais, que procuraram a direção do estabelecimento. A educadora se viu colocada em uma espécie de paredão moral ao ser convocada a se apresentar diante da família e da diretoria. Nem mesmo o testemunho de outros alunos, favorável à professora, foi suficiente para acalmar os ânimos. Aos gritos, a mãe exigia sua demissão.

Depois de conseguir manter o emprego, mas perder a serenidade, a professora chegou em casa para amamentar a filha de um ano e meio. Tomou-a nos braços e recostou-a contra o seio. Teve uma crise de choro ao perceber que não era capaz de alimentá-la.

– O clima do trabalho era tão ruim que o meu leite foi secando, secando. Depois desse dia, nunca mais consegui amamentar a minha filha – recorda a educadora, que pede para não ter seu nome divulgado.

O ambiente hostil já a havia obrigado a recorrer a medicamentos pesados, como o antidepressivo Fluoxetina e o ansiolítico Rivotril, e a duas sessões semanais de terapia. Nos últimos meses, conseguiu abandonar a Fluoxetina, mas ainda precisa das gotas de Rivotril para dormir e faz terapia uma vez por mês.

– Também havia uma pressão muito grande. Se a escola ia mal no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), a culpa era do professor, se um aluno rodava, a culpa era do professor. Surtei – relata a docente.

Além de minar sua serenidade, o dia a dia escolar aniquilou o casamento. O desgaste afetou a relação com o marido, e o casal se desfez.

Por vezes, a busca de paz em frascos de remédio é intensificada pela pressão excessiva exercida por alunos e diretores. Uma educadora da Capital relata que não suportou a constante necessidade de resolver conflitos.

– Eu não conseguia ter um pouco de sossego nem no horário do recreio. Em vez de descansar, tinha de tratar de problemas disciplinares, de problemas familiares dos alunos, de um ou outro projeto – afirma.

Como resultado, também buscou o sossego artificial trazido pela dose diária de Fluoxetina e acompanhamento psicológico. Mesmo tendo trocado de estabelecimento, ela ainda não conseguiu se livrar da dependência do remédio.

O presidente do Sindicato do Ensino Privado do Estado (Sinepe/RS), Osvino Toillier, argumenta que o desgaste profissional não se resume ao magistério:

– Precisamos entender que todas as profissões têm desgastes maiores do que há 20, 30 anos. Mas a escola tem de proteger o seu professor. Aluno não é cliente, é educando.
Fonte: Assessoria de Imprensa Grupo Viva